Ele não é feio…

Sempre coloco o Leozinho para dormir. Isso acontece praticamente em todos os dias da semana. Essas noites são, portanto, ricas. Nesse momento, diversas reflexões filosóficas surgem. Elas são preenchidas pela apaixonante pureza dele. Daí, de forma lúdica, ensinamentos são construídos e aprendizados são incorporados para os dois lados. Numa dessas noites, o Leozinho estava muito incomodado, pois presenciou uma criança na brinquedoteca de um Shopping chamando outra de “feio”.  O que recebeu o chamamento começou a chorar num gesto de não aceitação daquela alcunha. Então, o Leozinho tentou protegê-lo dizendo, para quem tinha apelidado, que o coleguinha “não era feio”.…

0 comentário

“Esse povo não quer trabalhar…”

  Ao descer o elevador do condomínio onde fica o meu consultório, eu pude escutar duas senhoras conversando descontraidamente. De forma silenciosa, fiquei atento ao conteúdo. A temática da conversa era sobre suas domésticas e, no final do diálogo, fui presenteado com uma fala a qual usei como título desse curto artigo. Por coincidência, ambas desceram até o estacionamento e a conversa findou quando as duas entraram num belo carro da marca Toyota. Por ter pouco entendimento sobre automóveis, nem saberei informar o nome daquele carro.   O mais interessante sobre a fala despropositada daquela senhora foi a possibilidade de…

0 comentário

O estupro – uma criação do “homem”

  Qual espécie responde pela atitude de estuprar? Qual animal da biosfera é capaz de se reunir em bando para estuprar uma fêmea ou outro macho da própria espécie? A resposta dói e machuca. Somente a nossa espécie é capaz de fazer isso. Caso eu esteja equivocado, peço, humildemente, que os biólogos e os outros estudiosos da área corrijam-me. Lamento muito por tudo, mas acho que eu estou certo.   Enquanto espécie, o “homem” usa da perversão para ser mau e realizar essa maldade. Da mesma forma, enquanto macho, o “ser humano” usa do machismo para dominar e se impor.…

0 comentário

O flerte da angústia

Em todos os dias de trabalho, a angústia me encara. Essa é a rotina de um psiquiatra. Então, essa é a minha rotina. Esse flerte provoca-me sensações intensas até por que a angústia tem olhos vorazes que acaba por me machucar. Ela é agressiva tendo uma agressividade surreal, visto que, mesmo silenciosa, ela causa um estardalhaço desumano. Com uma precisão certeira, ela me alveja. Por ela, sou golpeado. Ela se apresenta na lágrima discreta de quem me procura, mas também no choro copioso e desesperado de quem implora um socorro. A voz embargada pode ser o meio de expressá-la. O…

0 comentário

O pretérito presente

O pretérito presente Para escrever essa reflexão, citarei uma cena do filme Forrest Gump. Sou suspeito em falar dessa película por vários motivos sendo o mais especial o fato de ter começado minha história com a Veca, esposa e mãe dos meus filhos, assistindo esse filme. Isso há exatamente 22 anos. Pois bem, na cena abaixo, o tenente Dan perdoa o Forrest e também a Deus. O passado do tenente Dan sempre o perseguiu e o atormentou. Ao não morrer no Vietnã, comandando seu pelotão, o tenente Dan não aceitava continuar a vida, sobretudo por ter perdido suas pernas e…

0 comentário

O que é o inferno?

Quando cheguei para pegar o Leozinho na escolinha, ele veio correndo em minha direção. Nós nos abraçamos como era de costume. Então, próximo do meu ouvido, ele falou baixinho: “papai, eu não vou para o inferno”! Sem entender muito bem o que aquilo significava, eu respondi perguntando: “Claro que não meu filho, mas por que você está falando isso?”. Daí, eu pude compreender do que se tratava. Durante o recreio, um dos seus coleguinhas falou, em tom de brincadeira, que ele iria para o inferno, contudo ambos não sabiam as significações da palavra inferno. Acredito que seu coleguinha escutou e…

0 comentário

O tiro aos 10 anos de idade

Recentemente, após uma criança com 10 anos de idade morrer por tiro de arma de fogo em confronto com a polícia, apareceram as duas versões reducionistas: “ela atirou na polícia” e “ela não atirou na polícia”. Não percebemos que essas versões representam um pequeno detalhe sobre o caos social. A análise empobrecida sobre o “se ela atirou primeiro ou não” só servirá para culpabilizar e inocentar um lado ou outro. Nesse contexto, não nos atentamos para a reflexão mais importante: só o fato de uma criança portar uma arma de fogo evidencia o quanto estamos socialmente doentes. Pouco importa se…

0 comentário

Panelas batendo

     Há uma diferença dantesca quando se escuta, por exemplo, panelas batendo num morro carioca e no Leblon ou numa periferia de São Paulo e em Higienópolis. O mesmo instrumento de metal. Claro que com qualidades e preços diferentes, mas, de fato, o mesmo utensílio. Também, eu posso afirmar que o “panelaço” coletivo é produto de algum tumulto ou algum desejo de manifestação e de comunicação. Por vezes, o que a voz não consegue falar pode ser escutado de outras formas. Então, quem sabe podemos bater panelas. Contudo, o ato de “panelar” pode desnudar o diferente. Bater panelas na…

0 comentário

Por que eles são maus, papai?

O Leozinho, atualmente, tem um fascínio interessante por vídeos do YouTube. Eis que numa noite, durante o seu jantar, ele assistia cenas do naufrágio do Titanic – o célebre filme de James Cameron. Ele notou que “os que tinham roupas bonitas podiam sair para entrar nos botes enquanto os que não tinham roupas bonitas tinham que esperar”. O meu Leozinho percebeu as definições dos maus. O mau que não é bom e o mal que não faz o bem. Portanto, ele, olhando nos meus olhos, questiona: “Por que, papai”? “Por que uns podem e outros não podem”? Como poderia responder…

0 comentário

Qual o custo de ser coadjuvante da própria vida?

A vida não perdoa quem não assume o protagonismo da sua própria vida. Isso é um fato, mas, infelizmente, muitos não se atentam para tal inércia. Consequentemente, aquele que escolhe ficar alheio às demandas, responsabilidades e escolhas da vida sofrerá e receberá as cobranças dessa falta de postura. Há pessoas que sempre “terceirizam” aquilo que é da sua responsabilidade. Eles se protegem do sofrimento embutido no ato de escolher e de se posicionar. É possível que essa esquiva reflita uma fragilidade emocional a qual, se não tratada, nunca permitirá um crescimento pessoal e uma evolução psicológica. É impossível ter uma…

0 comentário