Ele não é feio…

eu e leo contra o preconceito

Sempre coloco o Leozinho para dormir. Isso acontece praticamente em todos os dias da semana. Essas noites são, portanto, ricas. Nesse momento, diversas reflexões filosóficas surgem. Elas são preenchidas pela apaixonante pureza dele. Daí, de forma lúdica, ensinamentos são construídos e aprendizados são incorporados para os dois lados.

Numa dessas noites, o Leozinho estava muito incomodado, pois presenciou uma criança na brinquedoteca de um Shopping chamando outra de “feio”.  O que recebeu o chamamento começou a chorar num gesto de não aceitação daquela alcunha. Então, o Leozinho tentou protegê-lo dizendo, para quem tinha apelidado, que o coleguinha “não era feio”.

Então, o Leozinho me perguntou: “papai, por que ele o chamou de feio”.

Tentei explicar, usando uma linguagem acessível, que provavelmente aquela criança não trazia em si a certeza do que falava. Talvez, dentro da sua casa, não foi explicado que nunca devemos chamar alguém de qualquer coisa negativa. Como também não devemos deixar de gostar de alguém pelo simples fato desse alguém ser diferente de nós. Complementei explicando que o mais grave será o futuro, pois, se essa criança não for ensinada e orientada eticamente, teremos um adulto preconceituoso.

Não podia trazer para o meu Leozinho as conceituações de juízos apriori de Immanuel Kant os quais não necessitam de experimentação por se bastarem na construção mental do ser. Em outras palavras, eles existem por si só e se retroalimentam na manutenção do julgamento. O preconceito abita esse mundo apriori. Algo construído na estrutura da personalidade e que deve ser quebrado pela ética e pela educação as quais demandam uma ação social, sobretudo no início da construção dos valores, ou seja, na infância. Se isso não for feito, o preconceito fica encapsulado e rígido tal qual um diamante. Portanto, ele assumirá um status difícil de quebrar. Isso não se modifica a fórceps, visto que, a construção da espiral preconceituosa precisa ser, logicamente, desconstruída.

As leis e as punições aliviam e frearão uma parcela dos preconceituosos, mas não haverá mudança do pensar social nem, muito menos, uma modificação do constructo preconceituoso da sociedade, pois as interações entre o homem e sociedade se manterão estáticas. Há de se quebrar isso com novas e sadias interações como bem proposto por Pierre Bourdieu em seu Habitus. Para tal, é preciso ensinar virtudes, discutir ações corretas e construir uma nova aquarela de relações de vida.

Parabenizei meu amado Leozinho e mostrei como ele é corajoso. Dei um beijo no seu rosto e terminei dizendo: “continue assim meu filhinho, pois não existem feios. Na verdade, feio é não gostar dos outros, simplesmente, por julgá-los como diferentes”.

Régis Eric Maia Barros