A arte sempre se mantém viva

Hoje, tinha tudo para ser um dia de trabalho como os outros. Mas, na minha atividade pericial no serviço público, fui surpreendido com um presente. A última perícia do dia me reservou uma bela e grata surpresa. Era um caso simples. Daqueles que não necessitavam de perícia, sobretudo num período de pandemia. Os documentos médicos, os autos processuais e a apresentação da pericianda falavam por si só. Estávamos diante de uma Demência de Alzheimer em estágio avançado. Logo, a cognição era bem comprometida. Ela mantinha uma motricidade mais limitada e apresentava um importante comprometimento de todas as funções cognitivas. Ela…

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AmarElo

Estimado Emicida, Meu nome é Régis Barros. Sou médico psiquiatra e venho, por meio desta, parabenizá-lo pelo documentário musical AmarElo. Entendo que uma das principais dores emocionais que um humano pode passar é ter a sensação de que não existe, é ter a percepção de que não é visto, é ter a compreensão de que não é escutado e é ter a certeza de que, historicamente, foi excluído e colocado de lado na sociedade. Isso é muito doloroso. Para tal, o único tratamento possível é ofertar voz a essas pessoas. Ou seja, fazê-los perceber presentes nesse mundo fagocitário. Fazê-los lutar…

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Alimentar a alma

Claro que uso aqui uma linguagem figurada. Não falo da alma espiritual. Falo da alma filosófica. Essa alma oferta o fundamento da vida. Precisamos alimentá-la. Isso é o que permite o nosso existir. Nesse duro ano de 2020, isso se tornou mais real ainda. Pelo menos, para mim, é realidade pura. Escrevendo sobre isso, lembro-me dos sobreviventes dos Andes, que, após a queda do avião, sobreviveram 72 dias em meio ao frio, à fome e à morte. Eles alimentaram a alma. Eles buscaram algum sentido para viver quando a imensidão solitária e branca da neve teimava em tirar todo o…

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Quanta dor…

Já escrevi outras vezes, noutros textos, que, de tanto me envolver com a dor emocional, passei a aprender conviver com ela. A práxis em psiquiatria é assim: lidar e lutar contra a dor e o sofrimento emocional que machuca as pessoas. E como a dor é inevitável, temos, na psiquiatria, que encará-la diariamente. Esse é o meu cotidiano. No entanto, eu confesso que nunca vi tanta dor emocional. Atuo na psiquiatria há aproximadamente 20 anos e repito que nunca vi tanto sofrimento emocional. Há tanta dor que ela passou a não ser individual, mas sim coletiva e compartilhada. O futuro…

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O tempo…

Ele urge! O tempo é uma dimensão dual. Ele, por vezes, alivia dores, mas, outras vezes, as alimenta também. Quando olhamos para a nossa finitude, o tempo não joga no nosso time. Se não estivermos machucados pela amargura suicida ou numa posição de terminalidade paliativa, o tempo, que concretiza a finitude, sempre nos incomoda. Então, o que devemos fazer? Simplesmente, tentar viver. Todo dia é para ser vivido. Aproveitar o nosso tempo o qual não sabemos dizer quanto será. Quantas vezes nos esquivamos de se jogar para a vida? Tememos a morte, mas abdicamos da vida. Isso pode ter um…

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Separar o joio do trigo

Uma situação como essa, em que estamos vivendo com o COVID-19, traz revelações. Muitos se agigantam, mas outros se apequenam. As atitudes, ações e posturas levam a isso. E não são somente os políticos e os homens públicos que entram nessa ciranda. Os homens e as mulheres comuns também. Ou seremos grandiosos ou seremos minúsculos. As nossas capacidades de solidariedade, alteridade, caridade e olhar coletivo nos colocarão no local em que realmente devíamos estar. Agora, separa-se o joio do trigo. Nesse cenário caótico e açoitado pelo medo coletivo, evidenciam-se os altruístas e desnudam-se os egoístas. Perceberemos, claramente, aquele que pensa…

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E depois de tudo?

Passaremos por isso. Não tenho dúvidas. Também, não tenho dúvidas de que será doído e penoso. Mas, como dito, passaremos. Venceremos! E depois de tudo? Como ficaremos? O que o COVID-19 nos deixará de herança? Perguntas muito difíceis para que tenhamos uma resposta simples e objetiva. Os filósofos existencialistas costumavam dizer que, na dor, o ser humano encontraria a sua autenticidade e que essa mesma dor permitiria entender a essência da própria humanidade. Em outras palavras – a dor pode nos empoderar numa evolução de si mesmo. De fato, após atravessar jornadas dolorosas, costumamos nos transformar em pessoas bem maiores…

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Mulher

Ventre de bondade O começo e o fim Tem suas mãos Abençoadas e carinhosas A-M-O-R É a sua definição Mas, existe mais Luta, vontade, paixão e lealdade Mesmo com o abuso A despeito da misoginia Mantém a sua simpatia Protege e ampara Corajosa e bondosa És tu mulher! O que mantém a lógica em pé Em ti há tudo de bom Razão e fantasia Sorrisos em harmonia Há um erro aqui Lembrar desse dia É esquecer a essência Essencialmente, és especial Diurtunamente És fundamental Toda hora, todo dia A cada instante Dessa vida, antes e doravante Sem você, mulher Nada…

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Sem lítio

E agora sem lítio... O que faremos? Logo ele, tão eficiente Barato e contundente Antigo, uma medicação decente Do povo e da gente Nem precisa de algo novo Pois, o lítio resolve Por não ser caro Sai no escarro, do lucro Que engole sonhos E mata doentes O que faremos sem lítio? Impulsividade, ele freia Suicídio, ele repele Instabilidade, ele escanteia Humor, ele estabelece Equilíbrio e paz Benfeitorias que o lítio traz Sem ele, teremos amargor Dores e temor Tristeza e angústia Quem pagará? A bestialidade emocional prevalecerá O lítio do posto acabou Na farmácia, findou Lágrimas a rolar O…

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Um beijo estalado

Sempre recebo meus pacientes na porta de entrada do consultório. Costumo dar um abraço e um beijo no rosto. Entendo que todo encontro deve começar com vínculo e afeto, pois, sem isso, o encontro não teria sentido de acontecer e muito menos de continuar. Ontem, uma paciente, ao adentrar no meu consultório, antes do meu abraço, correu na minha direção e me deu um grande beijo estalado no meu rosto. Ela nunca tinha feito isso. Portanto, uma situação nova. Essa paciente, portadora de uma depressão severa proveniente de uma grave perda interpessoal na sua vida, sempre foi discreta. Sempre foi…

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