Rubem Alves: um mestre eterno

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(*) texto escrito horas antes da partida do mestre Rubem Alves

Eis que acabei de saber que o mestre Rubem Alves luta pela vida numa UTI da cidade de Campinas. Quanta tristeza! Sinto uma sensação de lacuna e nela há um vão existencial que Rubem Alves e sua escrita preenchiam. Se alguém que me lê agora for um compulsivo leitor de Rubem Alves, tal qual eu sou, certamente, entenderá o que eu desejo expressar.

Claro que uma ausência dele será muito sentida, pois deixaremos de ver e escutar suas entrevistas que são representações supremas da bondade e alegria. Claro que numa ausência dele, ir a uma livraria ficará mais chato, pois não teremos novas crônicas e obras do mestre. A possibilidade de viajar e se deliciar com uma mistura de filosofia, psicanálise, cultura, ensinamentos, amor e felicidade é um dos maiores deleites da sua obra. A sua produção ficará eterna, mas numa eternidade diferente. Uma eternidade pulsante e com uma vivacidade sempre atual. Se daqui a 20 anos eu tirar da minha estante um dos seus livros de crônicas para uma nova leitura, toda ela será diferente e repleta de novidades. Nessa leitura, algo novo e contemporâneo acontecerá. Uma nova lição para minha vida surgirá. Uma nova percepção feliz brotará. Como isto é magnífico! A cada leitura e a cada nova leitura do mestre teremos algo novo e capaz de nos fazer refletir sobre o nosso caminho e jornada. Só os magistrais por natureza e com boa índole são capazes disto. Só os diferenciados no amor permitem esta construção. O mestre é, a meu ver, o mais diferenciado dos diferenciados.  Talvez, os “diferenciados normais” até sejam ávidos leitores dele na busca do crescimento que será alcançado com a leitura das suas narrativas.

Para mim, Rubem Alves é um mestre repleto de adjetivos que transcendem a literatura, pois ajudar os leitores a evoluir com a escrita não é uma tarefa exclusiva do literário. Se ele fosse única e exclusivamente um bom contador de história, ele não seria um mestre, mas, talvez, um bom escritor. Nada mais do que isto. No entanto, a sua produção avança além da palavra escrita. Todos os seus textos são mensagens e lições capazes de tocar no fundo da alma. Seus escritos nos fazem refletir sobre a vida e permitem que mudemos nossas posturas frente ao mundo e ao outro. Ler Rubem Alves é ter muito mais do que uma leitura, pois, enquanto humanos, poderemos melhorar cada vez mais. Só os mestres, de fato, conseguem isto. Ele de forma lúdica, mágica e simples nos mostrou, em todas as suas obras, as grandes questões da vida e da humanidade. Lendo o mestre Rubem Alves, poderemos entender o quanto nós ora somos falíveis, ora somos fantásticos. Assim caminhamos – humanos capazes de tudo. Poderemos compreender esta gangorra dos bons e maus comportamentos com o mestre e suas produções. Se ficarmos atentos às mensagens dos seus textos, nós teremos a possibilidade de nos tornarmos melhores.

Eu, que começo a engatinhar neste desejo de escrever crônicas e textos reflexivos, sou, extremamente, grato ao mestre. Ele e sua escrita meiga foram os grandes estímulos para mim no sonho de tentar ser um escritor. Ele permitiu que minhas atitudes na vida fossem mais bondosas e humanas. Desse modo, ao me envolver com sua obra, acabei melhorando nas tarefas de ser pai, filho, irmão, esposo, amigo e psiquiatra. Enfim, eu melhorei na tarefa de ser um ser “humano”. Não existem palavras que possam simbolizar o meu agradecimento. Caso aconteça a partida do mestre, sentirei uma infinita saudade, mas, quando ela perturbar, puxarei um livro dele na minha biblioteca e lerei mais uma crônica. Conseqüentemente, a saudade ficará em segundo plano, pois a magia do conteúdo a sobrepujará. Força mestre! Ficarei aqui orando. Por fim, permita-me, copiar aqui algumas palavras suas que simbolizam este momento: “A saudade não deseja ir para a frente. Ela deseja voltar”.