“Esse povo não quer trabalhar…”

doméstica
 
Ao descer o elevador do condomínio onde fica o meu consultório, eu pude escutar duas senhoras conversando descontraidamente. De forma silenciosa, fiquei atento ao conteúdo. A temática da conversa era sobre suas domésticas e, no final do diálogo, fui presenteado com uma fala a qual usei como título desse curto artigo. Por coincidência, ambas desceram até o estacionamento e a conversa findou quando as duas entraram num belo carro da marca Toyota. Por ter pouco entendimento sobre automóveis, nem saberei informar o nome daquele carro.
 
O mais interessante sobre a fala despropositada daquela senhora foi a possibilidade de refletir ontologicamente sobre ela. O que seria o “não querer trabalhar”? Qual seria seu significado? Lembrei-me de Limoeiro do Norte/CE – uma cidade pobre do sertão cearense onde meu pai nasceu. Na década de 1990, era comum o fato de mulheres dessa cidade bem como de outras se aventurarem na capital. A aventura estava representada com a possibilidade de ser doméstica. Elas buscavam luz frente à escuridão da falta de oportunidade. Elas lutavam, sem armas, pela possibilidade de existir em essência.
 
E como era esse regime de trabalho e as possibilidades?
 
Elas dormiam no emprego e ganhavam a alimentação. O salário, per si, era inexistente de modo que elas recebiam algum agrado financeiro, além de roupas usadas pela família. As folgas não eram estabelecidas, pois dependiam do interesse da família. Seu espaço era claramente delimitado beirando à exclusão. Para mim, à luz do meu pensar atual, isso tinha similaridade à escravidão. Talvez, a senhora do elevador gostaria de descrever esse regime sem garantias, sem respeitos, sem capacidades e sem possibilidades, até, de sonhar.
 
Portanto, minha percepção é muito diferente dessa senhora. Penso que o povo quer trabalhar e muito, inclusive as domésticas. Acredito que não se espalhou nenhum vírus causador de vagabundagem. Acontece que elas não precisam mais se submeter. Diversos outros trabalhadores, também, não precisam. Esse empoderamento quebra amarras e correntes de dominação. Há direitos conquistados e, mais do que isso, há dignidade. Consequentemente, o patrão tem que conviver com essa independência. Para piorar, o patrão não poderá ameaçar usando como objeto intermediário o medo de não ter outra possibilidade.
 
Dignidade nada mais é do que não se submeter e aceitar maus tratos pela condição de desproteção. Será que nesse Brasil ufanista e patriota isso se manterá? O tempo e a história nos responderão.
 
Régis Eric Maia Barros