O flerte da angústia

Terapia

Em todos os dias de trabalho, a angústia me encara. Essa é a rotina de um psiquiatra. Então, essa é a minha rotina. Esse flerte provoca-me sensações intensas até por que a angústia tem olhos vorazes que acaba por me machucar. Ela é agressiva tendo uma agressividade surreal, visto que, mesmo silenciosa, ela causa um estardalhaço desumano.

Com uma precisão certeira, ela me alveja. Por ela, sou golpeado. Ela se apresenta na lágrima discreta de quem me procura, mas também no choro copioso e desesperado de quem implora um socorro. A voz embargada pode ser o meio de expressá-la. O olhar cabisbaixo e de expressão gritante, por vezes, é o meio da sua comunicação.

Histórias pessoais e muito particulares são compartilhadas comigo. Nelas, o equilíbrio, de fato, foi derrubado pela angústia. Aquele que me olha sob a égide da angústia demanda um enfrentamento. Ele solicita de mim uma participação nessa guerra entre: vida versus angústia, paz versus angústia e felicidade versus angústia. Portanto, uma das minhas funções é confrontar a angústia independente dela me assustar. Claro que ela me assusta e causa em mim um certo temor, contudo isso não me faz desistir. Participo ativamente de todas essas guerras. Encaro e luto contra a angústia de todos aqueles que me procuraram e confiaram em mim seus relatos.

Consequentemente, a minha jornada sempre é árdua e a peleja é difícil. O cansaço sempre me ronda e dá o ar da sua graça. Embora isso seja uma regra, a resultante é bem positiva, pois os resultados e as vitórias desse envolvimento são os honorários da minha alma e do meu existir enquanto psiquiatra. Atrevo-me a afirmar que, da mesma forma que eu a temo, a angústia também me teme. Ela entende que não desisto e não baixo a guarda. Ela sabe que me posicionarei contra ela.

Não sei agora dizer se esse temor mútuo é bom ou ruim. Não sei afirmar também se isso é um alívio ou um peso. O que eu sei e posso afirmar é que essa é a minha tarefa e não abrirei mão dela. Essa é a minha missão. Talvez, por isso, eu escolhi a psiquiatria, pois, com ela, posso me colocar, recorrentemente, diante da angústia numa tentativa de limitá-la e de freá-la.

Ao final, como não sou imune a angústia, tenho a certeza absoluta de que todos aqueles que foram acolhidos por mim nessa luta, também, acabarão por me acolher. Esse acolhimento se dará pelo simples fato dessa relação ser repleta de cumplicidade e amor. E como bem salientou Rubem Alves: “amor é remédio”…

Régis Eric Maia Barros