Por que eles são maus, papai?

titanic

O Leozinho, atualmente, tem um fascínio interessante por vídeos do YouTube. Eis que numa noite, durante o seu jantar, ele assistia cenas do naufrágio do Titanic – o célebre filme de James Cameron. Ele notou que “os que tinham roupas bonitas podiam sair para entrar nos botes enquanto os que não tinham roupas bonitas tinham que esperar”. O meu Leozinho percebeu as definições dos maus. O mau que não é bom e o mal que não faz o bem. Portanto, ele, olhando nos meus olhos, questiona:

“Por que, papai”?

“Por que uns podem e outros não podem”?

Como poderia responder isso para ele? Claro que a filosofia, novamente, poderia me ajudar nessa tarefa, porém a linguagem deveria ser palatável para sua pouca idade. Pensei em Santo Agostinho e São Thomas de Aquino. Mesmo compreendendo que a Patrística e a Escolástica buscava fortalecer a fé, não posso deixar de me apegar a algumas mensagens de bondade desses dois filósofos medievais. A partir daí, tentei explicar que todos nós podemos ser bons ou maus e que nos cabe escolher o que desejamos ser. Na verdade, sempre que abdicamos da beleza da bondade alimentamos o horror da maldade. Ela pulsa em nós se não tivermos uma bondade ética arraigada na nossa formação. Simplesmente, há uma escolha entre o certo e o errado. Escolhemos pelo que entendemos como melhor e esse melhor pode ser contaminado por desejos, luxúrias, arrogâncias e dominação. Talvez, esse tenha sido o motivo do seguinte alerta de Santo Agostinho: “o mal se origina da ausência do bem e só pode ser atribuído ao homem, por conduzir erroneamente as próprias vontades”.

Pensei e respondi:

“Meu filho, nós devemos proteger e ajudar uns aos outros. O que é mais forte deveria proteger o mais fraco. O que se veste melhor deveria acolher o que se veste pior. O que você viu no filme está errado, pois todos deveriam sair. Quem fosse mais fraquinho, como os bebês, as crianças, as mamães, os vovôs e as vovós, é que deveria entrar nos botes primeiro”.

Por fim, ele me retorna com a seguinte pergunta mais incisiva:

“Então, papai, eles foram maus”?

Pensei rapidamente e complementei:

“Acho que sim. Eles podiam ter sido bons, mas não foram. Escolheram não ser. O importante, meu filho, é que você, agora, sabe que o certo é ser bom fazendo o bem. Tenho certeza que, se você tivesse lá, todas as pessoas fraquinhas, independente das roupas, entrariam nos botes”.

Régis Eric Maia Barros