Um beijo estalado

Sempre recebo meus pacientes na porta de entrada do consultório. Costumo dar um abraço e um beijo no rosto. Entendo que todo encontro deve começar com vínculo e afeto, pois, sem isso, o encontro não teria sentido de acontecer e muito menos de continuar. Ontem, uma paciente, ao adentrar no meu consultório, antes do meu abraço, correu na minha direção e me deu um grande beijo estalado no meu rosto. Ela nunca tinha feito isso. Portanto, uma situação nova. Essa paciente, portadora de uma depressão severa proveniente de uma grave perda interpessoal na sua vida, sempre foi discreta. Sempre foi…

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Renascer

Um paciente, que quase morreu, me falou algo marcante na última semana. Na verdade, em função de uma grave depressão, ele quase se matou. Ele me falou: “doutor, viver é um ato de renascer até por que todos nós, sem exceção, temos histórias tristes a contar”. Perfeito! Ele está certo. Sem exceção, caminhamos na linha do tempo e a dor, de uma forma ou de outra, sempre nos tocará. Não há como fugir disso. “Eita” que vida hábil em nos dar bordoadas! Portanto, como dito pelo sábio paciente, para que nós possamos viver, será preciso aprender a renascer. Um renascimento…

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Memórias…

Que dia duro! Que dia difícil! Muitos atendimentos pesados. Muitas histórias compartilhadas. A última consulta foi um caso novo. Uma paciente idosa acompanhada dos seus dois filhos. Uma queda cognitiva numa pessoa previamente bem funcional. Funções executivas que evidenciavam lacunas. Memória recente dando mostras de lapsos e déficits. Como é difícil realizar a propedêutica do diagnóstico de uma síndrome demencial. Pelo menos para mim é. Os olhos de todos, que estão nessa situação, cravam-me torcendo para que eu traga outra hipótese reversível capaz de justificar a queda da cognição. Nessa paciente de hoje, aconteceu isso. Eu a entrevistei. Eu testei…

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A psiquiatria

Hoje, depois de um longo dia de atendimentos, pensei em escrever esse pequeno relato. Talvez, o corpo cansado e a mente fadigada fizeram-me escrever esse pequeno texto. O objeto da psiquiatria está na mente. Os mais biologicistas poderão dizer que o cérebro e suas conexões seriam esse objeto. Os mais psicodinâmicos poderão dizer que a organização da psique seria esse objeto. Eu considero que o outro, ou seja, o paciente, em toda sua dimensão humana, configura o objeto de estudo e de trabalho da psiquiatria. Eu, enquanto psiquiatra, olho para o paciente na sua dimensão e nas suas relações humanas.…

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Uma história para ser compartilhada

No consultório, já escutei de tudo. Mas, o que eu escutei hoje precisa ser compartilhado. Portanto, eu o farei agora. Afirmo que o relato da paciente foi confirmado por uma das suas irmãs e uma sobrinha. Ambas a acompanharam na consulta. Tudo o que escutei foi descrito com detalhes e com envolvimento afetivo adequado. Havia dor emocional e não existia nenhum traço de teatralidade. Havia verossimilhança entre os fatos e o que foi relatado. Mais uma solicitação de urgência. há alguns dias a paciente havia planejado e quase realizado suicídio. Há 3-4 meses ela vinha deprimida e os sintomas depressivos…

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Dor emocional, uma dor não palpável

Há quase 20 anos escuto descrições de dores emocionais. Todos os relatos, por mais que sejam diferentes, trazem em si um objeto em comum - a potência da dor emocional. Ela é tão insuportável que, se não houver o devido cuidado, eu mesmo, de tanto conviver com ela, acabo sendo invadido e assolado. A verdade é que, de tanto vê-la e de tanto escutá-la, eu acabei por ficar calejado no enfrentamento da mesma. Quando alguém sente uma dor não localizada, como as dores emocionais, é muito sofrido, pois ela vai tomando conta de tudo. Ela toma conta do corpo, do…

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Valeu a pena…

Nessa semana, depois de alguns dias de recesso do consultório devido a uma pequena cirurgia, retornei ao batente. Já no retorno, fui mais uma vez surpreendido com uma reflexão de um paciente. Ele me disse que: “Doutor, o tratamento em psiquiatria nada mais é do que um resgate de sonhos e ilusões. Sobre o sofrer, cabe àquele que sofre sonhar. Sonhar por dias melhores. Ou seja, cabe pescar boas ilusões. Sei que, às vezes, isso acaba por ser difícil, mas é necessário. O tratamento tem que ser um meio para tal. De alguma forma, é função do tratamento pescar sonhos…

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Trincheira

Aqui, nesse consultório em que escrevo esse pequeno relato, eu aprendo e cresço todos os dias. A cada história, recebo afeto e engrandecimento pessoal. Isso é natural. Isso é inevitável. Eis que um paciente, antes bem deprimido, presenteou-me com a fala que destacarei abaixo. Hoje, ele está bem e retomou sua vida nos mais diversos aspectos. No entanto, anteriormente, na fase aguda da doença, os dias foram sombrios. Semana passada, ele, durante a sua consulta, agradeceu-me pela melhora com a seguinte fala: "Doutor, o senhor sabe o que significa uma trincheira? De certo, o senhor sabe sim. Mas, não sei…

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Em sísmico…

Assim, um paciente meu descreveu, após a melhora, como é ficar moderadamente deprimido. “Doutor, eu morei num canto do mundo em que tinha umas placas tectônicas nas proximidades. Doutor, acredite em mim. Não é confortável morar todos os dias numa região dessas. Vez por outra a terra treme e, quando treme, tende a ser de forma intensa. Pois bem, eu não sei se o senhor já esteve num sísmico cujo nome corriqueiro é terremoto. Se não, eu lhe garanto que é desesperador. Tudo treme e fica sem base. Você fica sem base. Seu chão fica sem base. O teto fica…

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Na calada da noite…

No domingo, ao final do dia, o meu telefone tocou. Mais especificamente às 23:45h. Quando atendi, quem me ligou se apresentou. Um paciente antigo que já não mais estava em acompanhamento comigo. De forma angustiada, ele disse que precisava conversar e queria um aconselhamento meu. Ele não estava chorando, mas percebi que, pelo embargar da sua voz, isso estava prestes a acontecer. Conversamos. Ele sempre foi muito objetivo, portanto aquela ligação não foi demorada. Eu o acolhi e o aconselhei como ele pediu no começo da ligação. Ao final, eu pontuei que estava preocupado com ele e sugeri que ele…

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