As perdas da vida

O Teatro Mágico

A vida nos oferta possibilidades maravilhosas, contudo não podemos deixar de concluir que ela, também, é muito competente em nos machucar. A despeito disso, viver ainda é uma atividade mágica onde as descobertas surgem como encadeamentos de conquistas.

Infelizmente, ao vivenciarmos as perdas, sangramos na essência dos afetos. Algumas perdas são parecidas com um terremoto de intensidade considerável, visto que, tudo está tremendo e a instabilidade é geral. Você, as pessoas e os objetos ao seu redor estão tremendo. Não há nada que te forneça segurança. Você se sente desprotegido, confuso e alheio para o mundo. Nada te ancora ou te sustenta. A dor de algumas perdas atua desse jeito mesmo. Ela é capaz de deixar um hiato sem igual, uma lacuna sem preenchimento e uma ferida latejante.

Já não sei quantos pacientes procuraram-me em face de tão lacerante algia. De fato, perder não é fácil. A vida nos prega essas peças. No entanto, gostaria de ressaltar um paciente que viveu tal demanda e que tive a honra e o privilégio de acompanhá-lo. Ele me procurou pelo mesmo motivo dos demais, ou seja, sintomas ansiosos e depressivos reativos à perda. Alguns chamam de luto e outros querem escalonar, artificialmente, esse processo emocional em fases que caminham da negação até a aceitação. Eu não! Eu prefiro entender e me envolver com a pessoa que está preenchida de angústia. Não é uma tarefa fácil, mas essa deve ser a minha função. Sem me perder emocionalmente, preciso me misturar com a angústia em tela. Procuro valorizar os relatos e os diversos adjetivos daquele objeto emocional que foi perdido o qual, na maioria das vezes, é um ente querido. A dor misturada com as lembranças saborosas daquele convívio. Realmente, a saudade borbulha com as memórias vívidas daquilo que foi experimentado como bom. Para aquele paciente, as saudades saltitavam. As suas lágrimas, a entonação da sua voz e os seus gestos evidenciavam, claramente, isso. Que saudade imensa! Mesmo assim, durante todos os seus atendimentos, ele buscava valorizar aquilo que ele viveu com essa pessoa. Portanto, ele trazia a saudade estampada no rosto, mas não deixava a dor da ausência sobrepor-se à presença das vivências de outrora. Era uma luta constante onde ele agradecia cada minuto da presença e se afastava da ideia de valorizar a ausência. A sua saudade será permanente e não poderia ser diferente, porém a força em valorizar a presença num estado de ausência agregava e dava significância.

A sua maneira de lidar com a perda marcou a minha trajetória enquanto psiquiatria. Além disso, ela foi capaz de me ensinar muito. Enfim, todos nós perderemos na vida. As lembranças e saudades permanecerão. Caberá a nós definir o que faremos com elas. Esse paciente construiu, pelo menos para si, a interessante reflexão de Santo Agostinho sobre a matéria – “a angústia de ter perdido, não supera a alegria de ter um dia possuído”. Desde então, para esse paciente, a alegria de ter possuído guiou a sua vida.

Régis Eric Maia Barros