A internação psiquiátrica deve ser breve

A maioria das internações psiquiátricas pode e deve ser breves. Excetuando-se as condições de refratariedade ao tratamento ou as situações sociais graves que acompanham alguns casos, a sintomatologia psiquiátrica pode ser melhorada em tempos relativamente curtos. Daí, o tratamento deve ser continuado na organização extra-hospitalar. Nesse novo cenário de mudanças nas políticas de saúde mental, isso precisa ser reafirmado, sobretudo, agora, com uma incursão mais robusta das comunidades terapêuticas (CTs) na rede de saúde mental. Inclusive, essa inserção terá suporte financeiro governamental. O paciente psiquiátrico deve ser tratado fora dos muros hospitalares. Ele precisa estar na comunidade. Isso diminui estigmas…

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A base da medicina é o amor

Que a fisiologia, a anatomia, a histologia, a patologia e as outras disciplinas da medicina me perdoem. Sou sabedor da importância de todos esses saberes, mas entendo, postulo e defendo que a base da medicina está no amor. Sem amor, o médico não conseguirá exercer a medicina, mesmo que domine todas as disciplinas. Não me entendam mal. Não estou aqui pedindo para que os novos médicos esqueçam os conhecimentos básicos e clínicos da medicina. Só estou querendo provar que o amor é a motricidade da arte médica. O amor é mais profundo do que qualquer bisturi, visto que, ele pode…

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A escuta e o acolhimento de um psiquiatra

  Em psiquiatria, não há muitos exames que permitam diagnosticar as dores emocionais. Na verdade, os padecimentos da alma, causados pelas doenças mentais, só podem ser acessados por um instrumento: a escuta. Isso, obrigatoriamente, coloca a psiquiatria no patamar de uma das especialidades médicas mais apaixonantes, visto que, resta ao psiquiatra, como instrumento terapêutico, o ato de acolher e escutar para depois diagnosticar e tratar. Por isso, a psiquiatria ainda representa a medicina romântica. Aquela medicina onde o médico poder atuar de forma aguerrida usando a si mesmo como terapêutica. Por mais que a ciência avance e a tecnologia prospere,…

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A minha redescoberta da medicina

Eu li boa parte dos livros mais famosos utilizados na formação médica. Acho que todos os meus colegas médicos também leram. Criava-se, inclusive, um jeito peculiar de nomeá-los. Nós os apelidávamos pelo nome do autor. Então, fizeram parte das minhas leituras e madrugadas de estudo o “Moore”, o “Sobotta”, o “Robbins”, o “Guyton”, o “Junqueira” e por aí vai. Vários outros livros em todas as disciplinas existiram, mas não vou citá-los aqui. Todos eles foram e são fundamentais e indispensáveis ao saber e a formação médica, porém confessarei a você algo inusitado – eu redescobri a medicina nas leituras não…

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A (não) defesa do Hospital Psiquiátrico Tradicional

  Começo esse artigo com uma reflexão: onde gostaríamos que nossos pais ou nossos filhos fossem internados, caso tivessem alguma alteração de comportamento? Após a Reforma da Assistência Psiquiátrica, surge um conceito – hospital psiquiátrico humanizado – que está sendo utilizado de forma repetida nas discussões sobre a matéria.   Entendo que esse conceito se propõe, inicialmente, a diferenciar um hospital não manicomial (“humanizado”) de outro manicomial (desumano e eugênico). Até que concordo, em parte, com essa diferenciação, mas minha concordância deixa de existir a partir do momento que o vocábulo “humanizado” é utilizado equivocadamente. Aquilo que é humanizado e…

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Um passo atrás na saúde mental brasileira  

Quando imaginamos que a evolução e o acompanhar da lógica terapêutica é um ponto basilar da medicina, eis que somos tomados de surpresa com a nomeação do novo Coordenador Nacional de Saúde Mental. Definitivamente, um retrocesso. O coordenador nomeado foi um dos severos críticos à Reforma da Assistência Psiquiátrica no Brasil e, também, exerceu a função de Diretor Técnico da Casa de Saúde Dr. Eiras de Paracambi (maior hospital psiquiátrico privado da América Latina). O referido hospital de características manicomiais sofreu várias denúncias de violações de direitos humanos nos pacientes internados.   Quem entrou num manicômio não é capaz de…

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Nota zero para a NOTA da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)

Nota zero para a NOTA da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) Brasília 15 de dezembro de 2015 Senhores Diretores da ABP, Com tristeza, decepção e surpresa, eu li a nota de esclarecimento, emitida ontem pela ABP, que fazia referência à nomeação do atual Coordenador de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde. Novamente, merece destaque que os senhores arbitram para si uma fala que nunca é dividida com a coletividade – os associados. Os senhores não respeitam a lógica democrática tão atacada nos tempos atuais. Em nenhum momento, os senhores se dirigiram a nós (psiquiatras brasileiros) para…

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Um simples haloperidol…

  Há pouco fiz uma perícia de obrigação de fazer com uma solicitação de internação compulsória. Na verdade, uma demanda pericial simples, visto que, o periciando estava completamente psicótico e tinha o juízo crítico de realidade totalmente prejudicado. Ele estava se colocando em situações de riscos pela importante heteroagressividade que apresentava. Portanto, a indicação pericial da internação compulsória estava acolhida e foi deferida.   Seria um caso simples e sem reflexões maiores se eu não tivesse me atentado para o real problema submerso na situação. O periciando acima entrou em crise e desorganizou a sua vida e a sua família…

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Bem mais do que medicar

Que faz um médico? Seria ele um agente capaz de perceber e catalogar sinais e sintomas dos diversos infortúnios que acometem a saúde? Seria ele alguém que fornece ungüentos e elixires para os males do corpo e da mente? Talvez, ele assume, dentre suas várias funções, essas, todavia ele faz mais. Na verdade, muito mais. Atrevo-me a afirmar que os atos cartesianos de diagnosticar, medicar e prescrever são os menores dos seus feitos. Isto acaba por ser condicionado, aprendido e replicado. A grande função do médico está no contato humano. Por isso, eu, também, polemizo afirmando que a medicina é…

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Queixa principal: “fome”

A atividade pericial, em medicina, é árdua e, muitas vezes, dolorosa, pois o perito, sempre, é testemunha ocular e vivencial de inúmeras mazelas que extrapolam a questão da saúde. Na verdade, não é incomum as questões familiares, sociais e econômicas serem mais importantes e significativas do que o agravo à saúde. Assim, é o meu dia a dia pericial – repleto de histórias tristes e cortantes. No último mês, uma delas me chamou a atenção. Aparentemente, tínhamos um quadro de fácil diagnóstico e com demanda litigante simples (incapacidade cível com interdição total). A apresentação da pericianda e a entrevista clínica…

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