Psiquiatria, espíritos e proteção

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Como já relatei em diversos outros textos, o psiquiatra, caso esteja atento a sua prática cotidiana, terá lições de vida nobres e reconfortantes. Enfim, na manhã de hoje, durante a última consulta do dia, não foi diferente e fui surpreendido novamente com algo emocionalmente rico. Demandas emocionais intensas, quando reverberam no afeto de um escritor, serão sempre compartilhadas. Portanto, da minha forma e com meus destaques, dividirei isto com todos vocês.

Tratava-se de uma senhora com idade já mais avançada que foi trazida pelo seu esposo, visto que, existiam queixas depressivas e de declínio cognitivo. Pois bem, mantendo meu estilo cearense e afetuosamente acolhedor, eu os entrevistei, eu os acolhi e, ao final, eu conduzi minha perspectiva diagnóstica e terapêutica. Alguns exames laboratoriais e de imagem se faziam necessários em face da possibilidade de organicidades, por exemplo, processos demenciais em instalação. Contudo, o mais importante, naquele momento, era o carinho e o acolhimento. O que eles mais necessitavam era a proteção do cuidar, que somente eu poderia ofertar naquele momento. Assim, foi feito e encaminhado.

Para minha surpresa, do meio para o fim da consulta, o esposo da paciente começou a chorar copiosamente com um choro verdadeiro entrecortado por soluços. Aquele senhor sério, que contribuiu com muitas descrições clínicas da sua companheira durante vários momentos da consulta, não conseguia silenciar esse choro cortante. Pensei comigo mesmo: o que eu teria falado ou feito?. Aguardei um pouco e questionei se poderia ajudá-lo em algo. Eis que ele me respondeu: “doutor, eu não sei em quem ou no que o senhor crer. Na verdade, nem sei se o senhor crer em alguma coisa. Contudo, eu preciso dizer algo para o senhor e, talvez, você não acredite em nada que descreverei. Pouco importa, pois direi mesmo assim. Enfim, atrás do senhor estão meus dois guias espirituais. Sou espírita e meus pares de estudos espirituais gostam de me chamar de evoluído, embora eu deteste tal denominação. Acredito que isto é uma deferência por parte deles a minha mediunidade. Eu me emocionei e ainda estou emocionado, pois raríssimas vezes, durante minha atual vida, eu os vi juntos. Nas pouquíssimas vezes que os vi juntos, isto ocorreu em momentos muito especiais. Além disso, quando os vi aqui, a expressão deles me tocou. Como te falei, eles estavam aí por detrás de você. Eles olharam para mim, logo depois de olharem para você. De forma serena, eles sorriram amorosamente passando uma sensação de paz e segurança. Logo em seguida, eu não os vi mais”. Em meio àquele turbilhão de emoções e sensações, eu tentei não me desestabilizar e, então, perguntei qual seria, no avaliar dele, a mensagem daquela vivência e experiência. Ele me respondeu: “respostas certas e absolutas em não terei para te dar doutor. Creio que estamos todos nós, eu, o senhor, a minha esposa e os meus guias espirituais, compartilhando do mesmo sentimento de bondade e confiança. Afirmo-te que me senti bem aqui e minha esposa também. O semblante de paz, tranqüilidade e amor deles, os meus guias, faz-me pensar que eles também gostaram daqui bem como de ti. Talvez, doutor o que percebemos neste meu relato é que a bondade faz a diferença e pode ser sentida, valorizada e apontada por todos independente dos planos espirituais que estivermos”.

O fim da consulta chegou, mas meu refletir não acabou e até o momento estou pensando sobre tudo isto que descrevi acima. Dentro desta magnífica análise de dualidade entre a razão e o místico-religioso, nós estamos e sempre estaremos questionando as verdades dos fatos. Qual seria a verdade? Nós temos a verdade? Qual seria a melhor verdade? Temos inúmeras perguntas e pouquíssimas respostas. Possuímos várias opiniões e infindáveis incertezas. No entanto, uma coisa é certa – fiquei feliz com este relato e com estas possíveis presenças espirituais no meu consultório. Que eu possa estar protegido na minha missão atual!
Régis Eric Maia Barros