Como é o amor?

amor

Numa das suas consultas, um paciente cujo afeto estava aplainado por uma longa história depressiva questionou-me: “doutor, sinto-me sem amor. Como seria o amor?”. É assim mesmo o trabalho de um terapeuta que está próximo dos seus pacientes. Vez por outra, somos abordados com alguma fala ou pergunta que nos pega de surpresa e nos desnuda. Enfim, para mim, o amor vai se expressando por si só. Ele simplesmente está presente e aparece. Talvez, o funcionamento depressivo desse paciente impedisse a autopercepção da expressão do seu amor. Contudo, a pergunta demandava uma resposta.

Assim, eu respondi: “o amor é atemporal e adimensional. Ele está presente no olhar, sentir, cheirar, tocar e escutar. Ele é de todos os sentidos e, ao mesmo tempo, “polisentido”. Sem ele, nada tem sentido e haverá de se manter sem sentido. Sente-se ele de todas as formas. Sente-se a ausência dele em todos os momentos. A ausência dele é sentida por que o amor dá o sustentáculo da vida. É dele que brota a razão do existir. O amor está presente mesmo naquele e para aquele que está ausente. É bidirecional, pois, se o amor é doado, ele será recebido. O amor é demonstrado na troca de olhares. O amor é perpetuado no companheirismo sem limites. O amor se redimensiona naquilo que é caridoso. O amor é fruto do cuidar e da preocupação em permitir que o ser amado tenha uma vida plena. O amor desapega e não aprisiona, pois o amor torce pelo outro – o ser amado. O amor é uma crônica de Rubem Alves e uma música de Bob Marley – algo gostoso, acolhedor e apaixonante. O amor é simples e sem retoques. Ele não precisa de carapuças. O amor é infantil como as crianças, visto que, ele é puro e sem interesses. O amor é progressista, libertário, democrático e cidadão, pois para ele não há distinção de gênero, cor, idade, situação social e olhar partidário. O amor é amplo, categórico e sem demarcações. É possível, sim, ter um latifúndio de amor sem que isto constitua falhas éticas ou comportamentos morais inaceitáveis, sobretudo se você regar a terra com o próprio amor para nascer árvores frondosas de felicidade. O amor é um escudo frente ao mal e uma arma frente ao feio. O amor é solidário, pois ele é capaz de escutar e se envolver com tudo ou todos que são amados. O amor engrandece, pois nele a inveja não prevalece. O amor é o beijo dos apaixonados. O amor é a reflexão solitária dos filósofos que é capaz de mostrar a essência e a verdade. O amor é verdadeiro e sincero. O amor está perto, mesmo que o ser amado esteja a milhares de quilômetros de distância. O amor é aquela chama dentro de ti que você sabe da existência, mas não sabe onde fica. Contudo, quando esta chama apaga, a vida se esvai, mesmo que fisiologicamente você esteja vivo. O amor é o passado, presente e futuro de mãos dadas mostrando a você que construímos nossa história. O amor é você e eu sou o amor. E “silepticamente”, o amor sou você e eu somos o amor. O amor é beijar, abraçar, acariciar, chorar, conquistar, perder, errar, sonhar, dividir, torcer, amadurecer e buscar. No entanto, não se esqueça de demonstrar e dividir isto com o ser amado, pois, se você não o fizer, parecerá que o amor não existe. Para piorar, se você insistir em não demonstrar, poderá acontecer algo pior: o esquecimento de como era o próprio amor”.

Fim de consulta. Poucas palavras faladas depois dessa minha reflexão. Um agradecimento curto com um sorriso discreto. Estas foram as expressões do paciente. Espero que o tratamento evolua positivamente e com rápidas respostas terapêuticas, pois, assim, ele poderá aproveitar melhor o amor dentro dele além de saborear o amor proveniente de quem ele ama. Ao final do atendimento, o paciente saiu da sala. Então, para fundamentar para mim mesmo o que eu havia falado na consulta, eu abri minhas músicas no computador e comecei a escutar One Love (Bob Marley) e isto permitiu que eu entendesse melhor tudo que descrevi. One Love! One Heart! Let’s get together and fell all right…

Régis Eric Maia Barros