Suicídio e suas significâncias e seus significados

esperança

De vez em quando, sou questionado sobre a dor do suicídio. Este questionar, que mescla angústias e anseios por respostas, aparece nas mais diversas ocasiões. Enfim, uma pergunta objetiva, sempre, norteia este sofrido diálogo – “como você consegue lidar com isto na sua rotina de trabalho?”. Na verdade, a resposta é muito simples: ninguém dá conta disto, inclusive eu. O suicídio e as suas representações emocionais atuam como um tsunami na vida de todos (família, amigos e profissionais de saúde) que estiveram junto daquele que tentou ou cometeu o suicídio. Ninguém é capaz de lidar com tal dor. Ninguém consegue se esquivar de algo tão marcante e desorganizador.

Contudo, algo precisa ser feito. Este é o meu papel enquanto profissional de saúde mental. Se nós estamos diante de tamanha dor (a percepção de que a vida não está valendo à pena), precisamos agir e com urgência. Mesmo que esta dor seja capaz de nos impactar, deixando-nos confusos e perdidos, urge uma atitude da nossa parte. Assim, nós atuaremos. Dessa forma, eu me posiciono. Respiro e me envolvo com a questão. Acolho a dor, o lamento e o tormento daquele que olha para a vida com olhos de despedida e, também, abraço aqueles que perderam alguém que desistiu da vida. Talvez, seja a dor mais massacrante que exista. Ela bate de cheio naquele que se coloca diante dela. Mesmo assim, é minha função e de todos que trabalham na área da saúde mental não temer este impacto gerado por ela. Portanto, ficamos firmes e com a guarda preparada, visto que, a força e a energia desferida por esta angústia é de tal ordem que derruba até os mais resilientes. Podemos, inclusive, chorar e sufocar, mas só depois de encarar este sofrimento e acolher aqueles que sofrem em conseqüência dele. Quem disse que depois disto não sufocamos nem choramos? Somos de carne e osso e muito mais humanos do que se imagina. Todavia, mantemos a luta. Focamos o olhar no amor alimentado pelo carinho do acolher.

Qual o elixir que usaremos na busca de mudar os pensamentos suicidas de quem pensa ou busca o suicídio? Como seria mais fácil se tal composto existisse! Ele não existe. Dentro desta espiral louca da vida, necessitaremos mostrar para quem está desesperado que a vida ainda pode ter sentido. Lutaremos “com” e “usando” a ambivalência. Ou seja, ao mesmo tempo em que há um pensamento de tirar a vida, há, também, um pensar desejoso de manter a vida. É nesta gangorra que deveremos investir, visto que, se a ambivalência acabar e pender para tirar a vida, muito pouco poderá ser feito. Desse modo, precisaremos trazer significados e significâncias para esta vida conflituosa, que é percebida com certo desdém por quem padece deste desespero existencial. Aqui, será nossa “arte terapêutica”. Claro que daremos nossos pulos para ganhar tempo e direcionar a resultante na manutenção da vida. Conseqüentemente, as medicações, a eletroconvulsoterapia e outras propostas terapêuticas serão utilizadas, mas a arte estará em mudar o foco deste desejo existencial. Para tal, caminharemos juntos e necessitaremos mostrar que, a despeito da própria vida, o viver ainda terá sentido. Por isto que tal guerra cansa e machuca. Imagine agir neste cenário e nesta configuração. Imagine investir nisto e, mesmo assim, perder um paciente que se suicidou. Imagine ter noção disto e acolher um familiar machucado por uma perda desta. Imagine tentar mostrar que a vida poderá ter sentido quando o agente da própria vida não ver sentido nela. Imagine…

Enfim, lutar contra o suicídio ou encarar as demandas provocadas por ele é uma das tarefas mais complicadas para qualquer pessoa, até mesmo para os profissionais que se propõem a isto. Mesmo assim, acolhemos e somos acolhidos nesta travessia. Acolhemos quem padece diretamente ou indiretamente do suicídio, mas também somos acolhidos, no âmago da nossa alma, por aqueles que acolhemos durante esta jornada dolorosa. A gratidão é expressa, sinceramente, na fala, no abraço, no olhar, na lágrima e no silêncio de todos que buscaram nosso acolhimento. No fundo, todos entendem as dificuldades nesta tentativa de encarar tal dor. Por isto, o afeto amoroso e a parceria terapêutica, entre todos estes atores, são os exemplos mais edificantes de carinho que eu posso, em vida, descrever. Em meio ao massacre doloroso do suicidar-se, recebemos, também, isto. Talvez, este seja o prêmio que nos mantém dispostos a continuar e a receber qualquer um que, em face das dores do suicídio, precise de nós.

 

Régis Eric Maia Barros