O temor da morte

vida

Mais ou menos assim, um paciente com dificuldades importantes na saúde e com expectativa de vida reduzida relatou-me sua percepção sobre a vida/morte.

“Doutor, eis me aqui falando sobre minha vida para você. Vida esta que sempre deve ser vívida, vivida e vivenciada. Eu vivi intensamente e me permiti errar e acertar. Eu posso dizer que não passei pela vida, mas sim que minha história, ao degustá-la, foi construída durante todos os dias desta bela e saborosa vida. Eu, também, posso dizer que a vida é um bem. Mais especificamente, um bem pessoal e seu. Somente seu! Por isto, você precisa respeitá-la e investir nela com todas as suas forças e sem medo de se equivocar. Não me arrependo de nada. Muitas vezes eu fui impulsivo e outras vezes medroso. “Bipolarmente”, chorei e gargalhei, sorri e me irritei e, até, acelerei e brequei. Eu não temo a morte. Ela não me assusta. Às vezes, até acho que ela não existe, visto que, morrer é deixar de acontecer. Nunca deixamos! E olhe que não estou tentando te convencer usando argumentos religiosos ou espirituais. Estou usando a razão. Eu e o senhor somos permanentes. Ao olhar para nossa vida e para as nossas diversas produções, podemos entender isto. Somos únicos e para sempre. Não morremos nem simplesmente desaparecemos. Mesmo sem herdeiros ou linhagens de futuro, marcamos nossa existência. Geralmente, o medo da morte se impõe por que, de uma forma ou de outra, olhamos para a nossa vida com percepções de metade. Ou seja, de que deveríamos ter feito muito mais. Claro que sempre poderíamos ter feito mais. Que bobagem! Todos poderiam ter feito mais, mas o importante é ter feito o bastante e o necessário. Ter feito o suficiente. Só assim, ela, a vida, terá sentido. Caso contrário, poderemos, amarguradamente, olhar com desdém para a vida e teremos medo de morrer, por que entenderemos que fizemos pouco. Eu não tenho nenhum medo de partir. Minha vida foi guerreira. Gostei dela. Valeu e como valeu. Se eu pudesse falar para qualquer pessoa que terá ainda uma longa jornada pela frente, eu aconselharia a viver. Simplesmente, viva e você verá que não há por que ter medo de deixar esta vida. O viver é construído na primeira pessoa e nunca em terceira. Este é o grande problema – esperar muito de fora e dos outros. As pessoas querem carinho, querem sucesso e querem felicidade. Tudo bem! Que se queira tudo isto e que se tenha tudo isto, todavia qual foi sua contribuição nesta busca? Faça valer! A vida é bela e nobre além de ser repleta de possibilidades. Encontre-as. Alimente-as. Tenha responsabilidade nisto. Só depende de você. Enfim caro doutor, assim eu penso. A vida pulsa sem fim ou data para findar. Esta pulsação se mantém, mesmo que você morra.”

Findou a consulta e comigo ficou a lição de que a vida é para ser vivida, pois, só assim, não temeremos a morte. Então, faça o seguinte: viva intensamente.

 

Régis Eric Maia Barros