A luta de boxe do psiquiatra

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Na semana passada, eu fui “provocado” por um paciente que atendo há mais de quatro anos. Ele é uma pessoa notável e especial. A relação terapêutica se mantém em consultas bem espaçadas. Inclusive, acredito que a manutenção dos encontros se dá mais pelo vínculo criado entre nós do que pela necessidade de manter um tratamento médico per si. Pois bem, ele já conhece alguns dos meus hobbies – escrever, atender e boxear. Então, por saber muito bem disto, fui provocado por ele com o seguinte questionamento reflexivo: “doutor, atender em psiquiatria é parecido com lutar boxe contra alguém mais forte? Se sim, o senhor deveria escrever algo neste sentido”.

Eis uma analogia interessante! Imagine você estar diariamente diante de várias lutas sabendo que todos os seus adversários são poderosos, imperdoáveis e massacrantes. Assim, eu me sinto nesta rotina de trabalho. Quando estamos diante das dores emocionais causadas pela ansiedade, psicose, depressão, angústia, tristeza e luto, nós precisamos cerrar os punhos, fechar a guarda, contrair o abdômen e se esquivar recorrentemente. Não é uma tarefa fácil, visto que, os golpes proferidos por tais amarguras são certeiros e capazes de machucar intensamente. A prática de trabalho de um psiquiatra, que se envolve de forma profunda e ética com as problemáticas dos seus pacientes, é assim – intensa e extenuante. Portanto, durante a jornada de trabalho, inúmeros jabs, diretos, cruzados, ganchos e uppers são proferidos em seqüência e com potência. Eles quebram as defesas do psiquiatra acertando-o com toda a força possível e imaginária. Quando as defesas não bloqueiam tais golpes, eles nos maltratam com toda energia e fazem latejar a dor dentro de nós. Como dói! É uma dor difícil até de descrever. As dores emocionais não cedem com analgésicos potentes ou opiáceos. Logo, elas borbulham nos nossos pacientes e nos atingem sem nenhuma ressalva. Atingem com uma desproporcional potência e com exatidão no alvo – o psiquiatra.

Contudo, mesmo recebendo golpes poderosos e dolorosos, acabamos por contra-atacar estes males da alma e da mente. Conseguimos tirar forças não sei de onde e, embora nossas envergaduras e amplitudes dos golpes sejam menores do que as dos adversários, nós também entramos na guarda deles. Desse modo, golpeamos com gosto a ansiedade, a depressão, o tormento emocional, a angústia, a tristeza e a infelicidade. A desvantagem aparente nos fortalece e buscamos bater no queixo e na têmpora desses oponentes causadores de dores. Muitas vezes, conseguimos um knockdown e comemoramos juntos com os pacientes. Quando os tormentos emocionais beijam o solo, depois de receber um ataque certeiro da nossa parte, resta-nos saltar de alegria e felicidade. Quem sabe a paz e a tranqüilidade reinarão novamente. Por vezes, também, perdemos, mas lutando até o fim, ou seja, até o sino do 12º assalto. Na psiquiatria e na vida do psiquiatra, não há, de fato, espaço para a desistência nem haverá medo de lutar. Pouco importa se a potência e a força dos golpes destas doenças e destes sintomas nos machucarão. Pouco importará se os tormentos são tenebrosos. Não temeremos nada!

Lutaremos até o fim e sempre manterei minha luta no propósito de dividir tudo isto com os meus pacientes. Por fim, acho que consegui responder a provocação do meu querido paciente. De fato, luto todos os dias. Uma seqüência de lutas de boxes contra adversários poderosos.

Régis Eric Maia Barros