A imutabilidade dos erros

Folha-Amassada

Em psiquiatria, os pacientes trazem uma descrição filosófica e própria dos eventos que os atormentam. Hoje, novamente, fui presenteado com um ensinamento vivencial que vai ao encontro dessa reflexão.

Atendi um paciente cujos sintomas surgiram em decorrência de um dos seus equívocos comportamentais, ou melhor, de uma atitude dele. Este ato consciente, voluntário e livre gerou conseqüências éticas para a sua vida. O filosofar ético e a responsabilidade moral eram claros – o referido ato nunca deveria ter sido praticado.

Contudo, ele o fez. Muitos outros, também, fizeram e continuam fazendo. Ele não é e não será o único a errar. Mas, para ele, a realidade se mostrou e se impôs. As consequências teriam que ser absorvidas por ele. Não existiria outro jeito. Não se pode fugir da realidade, sobretudo quando ela é provocada pelas nossas escolhas e atitudes (“agir” ou “não agir”).

Foi uma consulta densa em face da culpa manifesta a qual costuma não ceder a argumentos motivacionais. Após minhas considerações e encaminhamentos finais, ele argumentou da seguinte forma:

“Doutor, continuarei a vida. Não tem jeito. Seguir em frente é o meu desejo. Não sei como, mas seguirei.O que foi feito não se muda. Está marcado para mim e para todos que eu envolvi. Com o passar do tempo, quem sabe, até poderemos reestruturar algo entre todos nós, todavia nunca será mais do mesmo jeito”.

Ele fez uma pausa e continuou a falar.

Essa analogia, descrita abaixo, eu guardarei comigo.

“…É como se fosse uma folha de papel. Eu a amassei e joguei ela fora. Posso procurá-la, encontrá-la e fazer de tudo para desamassá-la. Posso alcançar o melhor resultado possível nesse objetivo, porém ela nunca mais será a mesma folha. As marcas continuarão. Basta querer enxergá-las que você visualizará. Isto não mudará e está marcado independente do que eu faça a partir de agora…”.

Ele estava certo nessa análise. Erros éticos importantes produzem marcas e cicatrizes imutáveis. Se você percebê-los e tiver a dimensão real das suas consequências, haverá uma dor emocional latejante.

Ele precisará continuar. Não sei se ele encontrará novamente a “folha de papel”, mas, se ele a encontrar, torço que tenha sucesso e que ela possa ficar “menos amassada” e boa para a vida.

Concluo e reflito da seguinte forma: como é bom e salutar que cuidemos das nossas “folhas de papel”.

Um abraço

Régis Barros