Panelas batendo

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Há uma diferença dantesca quando se escuta, por exemplo, panelas batendo num morro carioca e no Leblon ou numa periferia de São Paulo e em Higienópolis. O mesmo instrumento de metal. Claro que com qualidades e preços diferentes, mas, de fato, o mesmo utensílio. Também, eu posso afirmar que o “panelaço” coletivo é produto de algum tumulto ou algum desejo de manifestação e de comunicação. Por vezes, o que a voz não consegue falar pode ser escutado de outras formas. Então, quem sabe podemos bater panelas. Contudo, o ato de “panelar” pode desnudar o diferente. Bater panelas na sacada dos apartamentos confortáveis, certamente, acontece por algo que alheio à realidade do periférico. O inverso também é verdadeiro. Dentro de uma lógica democrática, isso é absolutamente aceitável. Contudo, quando uma diferença marcante dos “panelaços” aparece nos estratos sociais, há uma confirmação de que a democracia não é tão bem democrática. Na favela, não se bate panelas para derrubar quem foi democraticamente eleito. Inclusive, diga-se de passagem, eleito por boa parte do povo da favela e de outros locais periféricos. Quando se bate panelas na periferia é por motivos de sobrevivência. Sobreviver ao caos social, à violência policial e a falta de oportunidades que podem ser ofuscadas pelos “panelaços” dos apartamentos. Não sou tolo e compreendo a lógica de que cada um defende o seu. Entendo o mundo de outra forma e discordo dessa forma de agir, mas compreendo esse raciocinar. No entanto, o poder das panelas de Higienópolis e do Leblon é muito mais potente e charmoso para a imprensa do que as panelas periféricas. Elas reverberam mais. Fica aqui uma observação: as panelas sempre bateram nos locais de miséria, porém os ouvidos sempre ficaram tampados para elas, visto que, os interesses são outros.

“Panela batendo, toca fogo no pneu, põe barricada

Velhos, senhoras e crianças

A mulecada pula, debocha e dá risada

Parece brincadeira, mas não é

A comunidade não agüenta tanto tempo sem água…”

(O Rappa – Tumulto)

 

Régis Eric Maia Barros