Ele não é feio…

Sempre coloco o Leozinho para dormir. Isso acontece praticamente em todos os dias da semana. Essas noites são, portanto, ricas. Nesse momento, diversas reflexões filosóficas surgem. Elas são preenchidas pela apaixonante pureza dele. Daí, de forma lúdica, ensinamentos são construídos e aprendizados são incorporados para os dois lados. Numa dessas noites, o Leozinho estava muito incomodado, pois presenciou uma criança na brinquedoteca de um Shopping chamando outra de “feio”.  O que recebeu o chamamento começou a chorar num gesto de não aceitação daquela alcunha. Então, o Leozinho tentou protegê-lo dizendo, para quem tinha apelidado, que o coleguinha “não era feio”.…

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“Esse povo não quer trabalhar…”

  Ao descer o elevador do condomínio onde fica o meu consultório, eu pude escutar duas senhoras conversando descontraidamente. De forma silenciosa, fiquei atento ao conteúdo. A temática da conversa era sobre suas domésticas e, no final do diálogo, fui presenteado com uma fala a qual usei como título desse curto artigo. Por coincidência, ambas desceram até o estacionamento e a conversa findou quando as duas entraram num belo carro da marca Toyota. Por ter pouco entendimento sobre automóveis, nem saberei informar o nome daquele carro.   O mais interessante sobre a fala despropositada daquela senhora foi a possibilidade de…

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Minha primeira viagem de avião

      Algumas coisas marcam e ficam represadas na memória para o todo e o sempre. Eis que o relato, que vou descrever a seguir, é uma desses charmes hipocampais.   Pois bem, sou representante de uma família bem humilde. Meu pai era um “praça” da Polícia Militar do Estado do Ceará e minha mãe era dona de casa. Nasci e cresci no Álvaro Weyne – um bairro pobre e periférico de Fortaleza/CE. Com dificuldades e dando os nossos pulos, eu terminei o curso de medicina na Universidade Federal do Ceará. Após esse término de graduação, abriu-se a possibilidade…

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Miséria S/A

  Ontem, eu fui realizar uma perícia de interdição num assentamento próximo à Sobradinho/DF. Mais especificamente, uma invasão de terra numa área rural distante da cidade. Um local de cerrado e afastado da civilização. Um local de acesso complicado entre estradas de terra e, certamente, esquecido pelo Estado e pela sociedade. Um local cujo endereço não existia. Para encontrá-lo foi necessária uma grande articulação logística com o merecido destaque para a equipe de transporte do TJDFT.   Sobre a perícia, nada de novidade. Uma psicose crônica associada à dependência alcoólica que juntas determinaram, no decorrer do tempo e da evolução,…

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O estupro – uma criação do “homem”

  Qual espécie responde pela atitude de estuprar? Qual animal da biosfera é capaz de se reunir em bando para estuprar uma fêmea ou outro macho da própria espécie? A resposta dói e machuca. Somente a nossa espécie é capaz de fazer isso. Caso eu esteja equivocado, peço, humildemente, que os biólogos e os outros estudiosos da área corrijam-me. Lamento muito por tudo, mas acho que eu estou certo.   Enquanto espécie, o “homem” usa da perversão para ser mau e realizar essa maldade. Da mesma forma, enquanto macho, o “ser humano” usa do machismo para dominar e se impor.…

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O pretérito presente

O pretérito presente Para escrever essa reflexão, citarei uma cena do filme Forrest Gump. Sou suspeito em falar dessa película por vários motivos sendo o mais especial o fato de ter começado minha história com a Veca, esposa e mãe dos meus filhos, assistindo esse filme. Isso há exatamente 22 anos. Pois bem, na cena abaixo, o tenente Dan perdoa o Forrest e também a Deus. O passado do tenente Dan sempre o perseguiu e o atormentou. Ao não morrer no Vietnã, comandando seu pelotão, o tenente Dan não aceitava continuar a vida, sobretudo por ter perdido suas pernas e…

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O tiro aos 10 anos de idade

Recentemente, após uma criança com 10 anos de idade morrer por tiro de arma de fogo em confronto com a polícia, apareceram as duas versões reducionistas: “ela atirou na polícia” e “ela não atirou na polícia”. Não percebemos que essas versões representam um pequeno detalhe sobre o caos social. A análise empobrecida sobre o “se ela atirou primeiro ou não” só servirá para culpabilizar e inocentar um lado ou outro. Nesse contexto, não nos atentamos para a reflexão mais importante: só o fato de uma criança portar uma arma de fogo evidencia o quanto estamos socialmente doentes. Pouco importa se…

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Panelas batendo

     Há uma diferença dantesca quando se escuta, por exemplo, panelas batendo num morro carioca e no Leblon ou numa periferia de São Paulo e em Higienópolis. O mesmo instrumento de metal. Claro que com qualidades e preços diferentes, mas, de fato, o mesmo utensílio. Também, eu posso afirmar que o “panelaço” coletivo é produto de algum tumulto ou algum desejo de manifestação e de comunicação. Por vezes, o que a voz não consegue falar pode ser escutado de outras formas. Então, quem sabe podemos bater panelas. Contudo, o ato de “panelar” pode desnudar o diferente. Bater panelas na…

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Peleumonia e Raôxis…

Há pouco eu vi essa reportagem no portal do Globo. Tratava-se de um jovem médico desdenhando, possivelmente, de algum paciente de classe social desfavorável. Ao procurar o colega médico, certamente, esse paciente tenha se comunicado usando sua linguagem habitual e do dia a dia.   Daí, o colega médico publica tudo em uma mídia social. Pasmem! Para um maior espanto, outros colegas médicos, ao invés de recriminá-lo, acabaram por achar tudo aquilo o máximo e entraram na onda de “zoar” com o palavreado do povo desprotegido, povo esse que, diga-se de passagem, precisa intensamente do acolhimento da nossa profissão médica.…

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Qual o custo de ser coadjuvante da própria vida?

A vida não perdoa quem não assume o protagonismo da sua própria vida. Isso é um fato, mas, infelizmente, muitos não se atentam para tal inércia. Consequentemente, aquele que escolhe ficar alheio às demandas, responsabilidades e escolhas da vida sofrerá e receberá as cobranças dessa falta de postura. Há pessoas que sempre “terceirizam” aquilo que é da sua responsabilidade. Eles se protegem do sofrimento embutido no ato de escolher e de se posicionar. É possível que essa esquiva reflita uma fragilidade emocional a qual, se não tratada, nunca permitirá um crescimento pessoal e uma evolução psicológica. É impossível ter uma…

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