Miséria S/A

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Ontem, eu fui realizar uma perícia de interdição num assentamento próximo à Sobradinho/DF. Mais especificamente, uma invasão de terra numa área rural distante da cidade. Um local de cerrado e afastado da civilização. Um local de acesso complicado entre estradas de terra e, certamente, esquecido pelo Estado e pela sociedade. Um local cujo endereço não existia. Para encontrá-lo foi necessária uma grande articulação logística com o merecido destaque para a equipe de transporte do TJDFT.

 

Sobre a perícia, nada de novidade. Uma psicose crônica associada à dependência alcoólica que juntas determinaram, no decorrer do tempo e da evolução, uma incapacidade do periciando para o entendimento sobre os atos da vida cível. No entanto, o que me marcou foi a vivência da miséria.

 

Entrei num barraco cujo chão de barro úmido exalava um cheiro forte. As paredes eram feitas de papelão e de tábuas velhas. O teto era composto com telhas de amianto quebradas que quase tocavam na minha cabeça. Em face disso, o calor no barraco era insuportável. O lixo coabitava o mesmo espaço dos humanos e as pessoas se amontoavam. Os olhares eram perdidos, sem vida e com ar de derrota. A latrina, por detrás do barraco, dava o ar da sua graça. O ar era pesado e comprovava a exclusão social que aquelas pessoas viviam. As crianças corriam, no meio dos cachorros e entre os barracos, numa alegria pueril. Nesse momento, eu pude refletir que mesmo a poderosa miséria não é capaz de inibir a beleza da infância. Todavia, era uma questão de tempo, pois a miséria iria machucá-los com toda força possível. Talvez, a miséria, associada à carência de cuidado do Estado, os levassem para caminhos pouco felizes de roupagem violenta. Daí, a sociedade doente gritará: “bandido bom é bandido morto”. Mas, essa sociedade esqueceu que eles já foram assassinados há muito tempo atrás pela própria sociedade. O esquecimento é uma forma de assassinato. Aquele assentamento prova, materialmente, isso.

 

Confesso que meu coração doeu. Confesso que deu vontade de chorar. Confesso que o olhar deles me desnudou. Tantos sentimentos brotaram em mim. Uma culpa intensa e, quiça, descabida, todavia ela continua em mim até agora. Ainda me sinto culpado. Culpo-me por entender que poderia fazer mais e não fiz. Culpo-me por uma sociedade gananciosa e tendenciosa que cada vez mais se coloca de forma mercantil. Culpo-me por perceber que a dinâmica atual é do famoso embuste retórico da “meritocracia”. Quanta maldade! Mérito de que, de quem e para quem? Aonde chegaremos?

 

Meu papel, enquanto perito e servidor público, foi finalizado, mas fui tocado a entender que isso é infinitamente pouco. Eu preciso e devo fazer mais. A miséria S/A me mostrou isso. Como dito na música do Rappa, “a miséria acabou de falar…”. Precisamos escutá-la. É urgente!

 

Régis Eric Maia Barros