Minha primeira viagem de avião

 

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Algumas coisas marcam e ficam represadas na memória para o todo e o sempre. Eis que o relato, que vou descrever a seguir, é uma desses charmes hipocampais.

 

Pois bem, sou representante de uma família bem humilde. Meu pai era um “praça” da Polícia Militar do Estado do Ceará e minha mãe era dona de casa. Nasci e cresci no Álvaro Weyne – um bairro pobre e periférico de Fortaleza/CE. Com dificuldades e dando os nossos pulos, eu terminei o curso de medicina na Universidade Federal do Ceará. Após esse término de graduação, abriu-se a possibilidade de fazer a residência médica. Eu escolhi fazê-la em Ribeirão Preto – SP, contudo existia um custo para tal que minha família não podia bancar. Restou-me, como única possibilidade, dar vários plantões nos mais diversos hospitais do interior do Ceará. Só assim, eu pude juntar o dinheiro necessário para pagar as inscrições das provas, as diárias dos hotéis e as passagens aéreas.

 

Como se fosse ontem, lembro-me da minha primeira viagem de avião. Acreditem se quiser! Já era grande e recém formado em medicina. Foi exatamente em 2001 durante as provas de residência médica. Como dito por mim, a memória não me trai. De fato, o avião era um espaço claramente de divisão. Tudo muito bem delimitado. Não existiam pessoas sem recursos naquelas poltronas. Isso era claro e objetivo. Isso era mais do que material. Os mais humildes, que necessitassem viajar por grandes distâncias, utilizavam a via terrestre. Quando entrei na aeronave, entendi o porquê daquele garoto do Álvaro Weyne nunca ter entrado num avião. Tudo estava claro como água cristalina. Havia se estabelecido uma divisão notória do que era possível para cada classe social. De certa forma, por que não dizer que existia um Apartheid velado e subliminar.

 

Hoje, quando vou embarcar, costumo observar tudo, desde o check-in, passando pelo embarque até a viagem dentro do avião. Quanta diferença! Só não percebe quem não quiser notar ou quem quiser negar. Há uma bela mistura de pessoas das mais diferentes classes sociais. Há uma presença diversificada de representantes de várias cores, etnias e graus de instrução. Isso fala por si só. Algo aconteceu nos últimos anos. Algo foi capaz de incluir. Se esse algo foi o bastante, não me cabe discutir aqui, mas ninguém, que se motivou a ler esse texto, poderá discordar disso, ou seja: algo aconteceu.

 

Enfim, em meio a tanto ódio, precisei escrever isso. Eu, pobre e perdido em 2001, me senti um peixe fora d´água dentro de um avião. Hoje, temos um espaço mais democrático e sem a evidente exclusão histórica e social. Precisamos andar muito ainda, porém nos últimos anos se andou bem e pensar o contrário soa muito mal e pode evidenciar, além de cegueira, uma grave má intenção.

 

Régis Eric Maia Barros