Como você se sente?

Uma das experiências mais intensas na minha vida de psiquiatra é a possibilidade de escutar as expressões vívidas dos pacientes ao descreverem como se sentem ou como sentem a dor que os assolam. Lembro-me de um paciente gravemente deprimido que, ao ser questionado por mim como ele se sentia, assim, me respondeu: “Sinto-me rasgado e apartado. Há uma inflamação dentro de mim”. Meses depois, com a melhora, tornei a fazer a mesma pergunta. Assim, foi a resposta: “Sinto-me reeditado e respirando” As expressões pessoais de cada um são extremamente capazes de expressar tudo em pouquíssimas palavras. A vivência da dor…

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Para mim a psiquiatria é…

Para mim a psiquiatria é… Mais do que uma especialidade médica, mas sim uma verdade onde o verdadeiro é encontrado na bondade. Ela é uma arte com uma das suas mãos segurando o conhecer médico e a outra o saber humano. Uma interface real de vida e descobrimento. Conhecendo o ser em essência. Assim, deve ser a psiquiatria. Desse jeito, vejo o porquê dela existir. Mais do que remédios. Além dos psicofármacos. Extrapolando algoritmos fisiológicos. Uma medicina dentro e fora da medicina. Desse modo, a psiquiatria é e deve ser. Pelo menos, assim, eu a vejo. Um agir pautado na…

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Compartilhamento da dor

Compartilhar a alegria é uma tarefa, relativamente, fácil. Dividir momentos felizes é um ato leve e saboroso. Difícil mesmo é repartir a dor. Angustiante, sim, é o compartilhamento sincero da angústia. O acolhimento verdadeiro da dor é um dom, por vezes, difícil de encontrar. A dificuldade acontece, porque, ao se abrir para a dor do outro, dói também na gente. Em todos os dias de trabalho, eu encaro a dor. A minha rotina é pautada no ato de abraçar, de forma literal e figurativa, aquele que padece de dor emocional. Eu não temo a dor. Por mais que ela seja…

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A jornada psiquiátrica desse psiquiatra

  Tem dia que massacra. Não sei como suporto. São tantas dores de todas as cores que nem sei por onde começar. Soluços, choros, suspiros, olhares e gestos. Muitas são as comunicações não verbais que, às vezes, comunicam mais do que a fala até por que costumamos não falar das dores. Contudo, elas são muito presentes no nosso viver. Elas são bem prevalentes no meu cotidiano. Usando uma linguagem de luta, costumo afirmar que tenho que aprender a me esquivar delas. Em alguns momentos, eu consigo, mas, em outros, não. Elas são tão poderosas que costumam machucar além daqueles que…

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O flerte da angústia

Em todos os dias de trabalho, a angústia me encara. Essa é a rotina de um psiquiatra. Então, essa é a minha rotina. Esse flerte provoca-me sensações intensas até por que a angústia tem olhos vorazes que acaba por me machucar. Ela é agressiva tendo uma agressividade surreal, visto que, mesmo silenciosa, ela causa um estardalhaço desumano. Com uma precisão certeira, ela me alveja. Por ela, sou golpeado. Ela se apresenta na lágrima discreta de quem me procura, mas também no choro copioso e desesperado de quem implora um socorro. A voz embargada pode ser o meio de expressá-la. O…

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A mente “sã”

  Há quem diga que a loucura entorpece a mente “sã”. Há quem diga que o enlouquecer é capaz de quebrar a capacidade de ajustamento humano à realidade. Mas, eu pergunto o que seria uma mente “sã” e uma mente “louca”. Quantos indivíduos “sãos” agem de forma ordenada e matreira? Quantas mentes “saudáveis” são ardilosas na busca dos seus desejos? Egolatria, vaidade, corrupção e preconceito são características de muitos que são ditos “normais”. Egos inflados e repletos de artimanhas povoam a mente de vários “saudáveis”. Nesse contexto, há uma dúvida metafísica: o quão “louco” é uma mente saudável e o…

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“Eu estou nas trevas”

  O título desse pequeno artigo foi a queixa principal de um paciente deprimido que atendi recentemente. Nada mais simbólico e descritivo de dor poderia existir. Com quatro palavras, ele foi capaz de se comunicar com mais eficiência do que muitos longos discursos. O mais interessante é que para ele a luz existe e sempre existiu. Mas, em algumas situações como aquela, ele estava incapaz de enxergá-la. Em outras palavras, a escuridão é secundária e conseqüente à ausência de luz. E se você permanece por muito tempo nas trevas, fica difícil de acreditar que a luz exista. Esse paciente pediu-me,…

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O medo de perder

Hoje, atendi uma paciente que descreveu a sua esquiva de se vincular às pessoas e aos afetos. Ela tinha uma razão para isso. Segundo ela, tantas perdas sofridas e dolorosas já tinham acontecido na sua vida que o melhor seria se esquivar para não perder mais. Talvez, o melhor seria entender que o perder faz parte e, se ele existe, é por que, vez por outra, ganhamos. Nessa jornada da vida, podemos optar por evitar vínculos pelo medo da perda ou entender que perder faz parte da vida. Sempre que perdemos, não há uma derrota per si, mas sim o…

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Nunca estamos sozinhos…

A solidão machuca. Ela é como se fosse uma ferida inflamada. Só o ato de lembrá-la é capaz de gerar desconforto. Imagine quando ela é tocada! Aí que vai doer mais e que vai doer mesmo. Na última semana, um paciente questionou-me com um olhar aflito de socorro: “doutor, como faço para lidar com a minha solidão?” Se você parar para pensar, não era uma tarefa simples responder a essa pergunta. Então, pensei no Forrest Gump – o fantástico filme estrelado por Tom Hanks. “Corra! Forrest! Corra!” Assim era a vida solitária de Forrest. Correndo em busca de encontros e…

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Passei a não temer a angústia…

A angústia sempre incomoda, visto que ela maltrata e consegue, via de regra, ultrapassar as nossas defesas. Todos nós já a sentimos. É possível que muitos estejam, nesse momento, sentindo. Ela vem e toma conta do pensar e do sentir. Ela é chata... Em face disso, o temor de tê-la está sempre presente em todos. Procuramos nos esquivar dela de todas as formas. Infelizmente, na minha prática de psiquiatra, isso é impossível. Convivo com a angústia diariamente. Ela me flerta com constância. Eu a conheço sem igual. Ela se apresenta para mim através do desespero, do choro, da tristeza, da…

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