Compartilhamento da dor

dor emocional

Compartilhar a alegria é uma tarefa, relativamente, fácil. Dividir momentos felizes é um ato leve e saboroso. Difícil mesmo é repartir a dor. Angustiante, sim, é o compartilhamento sincero da angústia. O acolhimento verdadeiro da dor é um dom, por vezes, difícil de encontrar. A dificuldade acontece, porque, ao se abrir para a dor do outro, dói também na gente.

Em todos os dias de trabalho, eu encaro a dor. A minha rotina é pautada no ato de abraçar, de forma literal e figurativa, aquele que padece de dor emocional. Eu não temo a dor. Por mais que ela seja capaz de me esbagaçar, mantenho meus punhos cerrados. A prática psiquiátrica demanda isso, pois a psiquiatria é uma arte que extrapola os neurônios e os neuroreceptores. A dor emocional solicita carinho, afeto, dedicação e amor – armas humanas contra os amargores da humanidade.

A latejante dor emocional bate naquele que se atreve ficar defronte dela. Sistematicamente, coloco-me na sua mira de ação. Por vezes, fico tonto e sem fôlego, todavia não me permito refugar. É a minha missão. É o meu dever. A dor emocional, também, teme o psiquiatra, visto que, ele não cansa de atacá-la. Se ela investe contra nós, psiquiatras, revidamos a altura. Por isso, a verdadeira psiquiatria é extenuante. Infelizmente, a essência da psiquiatria vai se liquefazendo para alguns. Para esses, os códigos diagnósticos e os constructos, exclusivamente, farmacológicos bastam. Para esses, o além – filosofia, sociologia, psicologia, teologia e o humanismo – é “perda de tempo”. Lamento muito essa perspectiva que alguns psiquiatras possuem e acabo por me entristecer ao perceber que essa parcela cresce nos dias de hoje. Inoportunamente, a dor emocional de alguém em sofrimento vencerá caso esse alguém esteja diante de um profissional sem “essência psiquiátrica”.

A dor emocional machuca. Isso é fato. Contudo, o resultado de confrontá-la é fenomenal. A mudança no olhar daquele que padeceu dela é marcante. Após o expurgo da dor, a gratidão de quem sofreu esse doloroso momento fica guardada na nossa memória. A dor pode passar e um vínculo paciente-psiquiatra se perpetuará. Seria eu um psiquiatra romântico? Talvez, sim! Mas, prefiro ser assim.

Régis Eric Maia Barros