O privilégio de ser psiquiatra

  Hoje, agora a pouco, atendi um paciente de 90 anos, extremamente lúcido, que era portador de um câncer terminal (Ca de pâncreas metastático). Ele foi encaminhado por um colega médico que me passou sumariamente o que se pretendia com a minha avaliação. Enfim, pensei, ao ver o sinal da sua chegada na agenda, que teria uma consulta densa e triste. Eis a surpresa! Diante de um paciente húngaro que viveu na Hungria durante a 2o Guerra Mundial e que sofreu junto da sua família a maldade humana deste período, eu recebi uma aula de amor, paz, bondade, carinho e…

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Suicídio e suas significâncias e seus significados

De vez em quando, sou questionado sobre a dor do suicídio. Este questionar, que mescla angústias e anseios por respostas, aparece nas mais diversas ocasiões. Enfim, uma pergunta objetiva, sempre, norteia este sofrido diálogo – “como você consegue lidar com isto na sua rotina de trabalho?”. Na verdade, a resposta é muito simples: ninguém dá conta disto, inclusive eu. O suicídio e as suas representações emocionais atuam como um tsunami na vida de todos (família, amigos e profissionais de saúde) que estiveram junto daquele que tentou ou cometeu o suicídio. Ninguém é capaz de lidar com tal dor. Ninguém consegue…

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A luta de boxe do psiquiatra

Na semana passada, eu fui “provocado” por um paciente que atendo há mais de quatro anos. Ele é uma pessoa notável e especial. A relação terapêutica se mantém em consultas bem espaçadas. Inclusive, acredito que a manutenção dos encontros se dá mais pelo vínculo criado entre nós do que pela necessidade de manter um tratamento médico per si. Pois bem, ele já conhece alguns dos meus hobbies – escrever, atender e boxear. Então, por saber muito bem disto, fui provocado por ele com o seguinte questionamento reflexivo: “doutor, atender em psiquiatria é parecido com lutar boxe contra alguém mais forte?…

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Medicina significa amor

Lembro-me de um antigo artigo que escrevi intitulado “Afastar-se da medicina para se aproximar da medicina” (https://stabilispsiquiatria.com.br/…/160-afastar-se-da-m…) Lembro-me, também, de que o escrevi em meio a percepção não muito feliz sobre como a medicina vem se constituindo. Além de lamentar, como o jovem estudante de medicina vinha se preparando para a nobre missão de ser médico. Aqui, eu destacarei, novamente, um trecho do artigo: “…Como médico, eu darei, aqui, um conselho para quem desejar fazer medicina e se tornar um médico: “afaste-se, eventualmente, da medicina para se aproximar da medicina”. Ou seja, não fique preso somente ao conteúdo programático do…

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O temor da morte

Mais ou menos assim, um paciente com dificuldades importantes na saúde e com expectativa de vida reduzida relatou-me sua percepção sobre a vida/morte. “Doutor, eis me aqui falando sobre minha vida para você. Vida esta que sempre deve ser vívida, vivida e vivenciada. Eu vivi intensamente e me permiti errar e acertar. Eu posso dizer que não passei pela vida, mas sim que minha história, ao degustá-la, foi construída durante todos os dias desta bela e saborosa vida. Eu, também, posso dizer que a vida é um bem. Mais especificamente, um bem pessoal e seu. Somente seu! Por isto, você…

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Psiquiatria, espíritos e proteção

Como já relatei em diversos outros textos, o psiquiatra, caso esteja atento a sua prática cotidiana, terá lições de vida nobres e reconfortantes. Enfim, na manhã de hoje, durante a última consulta do dia, não foi diferente e fui surpreendido novamente com algo emocionalmente rico. Demandas emocionais intensas, quando reverberam no afeto de um escritor, serão sempre compartilhadas. Portanto, da minha forma e com meus destaques, dividirei isto com todos vocês. Tratava-se de uma senhora com idade já mais avançada que foi trazida pelo seu esposo, visto que, existiam queixas depressivas e de declínio cognitivo. Pois bem, mantendo meu estilo…

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Como é o amor?

Numa das suas consultas, um paciente cujo afeto estava aplainado por uma longa história depressiva questionou-me: “doutor, sinto-me sem amor. Como seria o amor?”. É assim mesmo o trabalho de um terapeuta que está próximo dos seus pacientes. Vez por outra, somos abordados com alguma fala ou pergunta que nos pega de surpresa e nos desnuda. Enfim, para mim, o amor vai se expressando por si só. Ele simplesmente está presente e aparece. Talvez, o funcionamento depressivo desse paciente impedisse a autopercepção da expressão do seu amor. Contudo, a pergunta demandava uma resposta. Assim, eu respondi: “o amor é atemporal…

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A imutabilidade dos erros

Em psiquiatria, os pacientes trazem uma descrição filosófica e própria dos eventos que os atormentam. Hoje, novamente, fui presenteado com um ensinamento vivencial que vai ao encontro dessa reflexão. Atendi um paciente cujos sintomas surgiram em decorrência de um dos seus equívocos comportamentais, ou melhor, de uma atitude dele. Este ato consciente, voluntário e livre gerou conseqüências éticas para a sua vida. O filosofar ético e a responsabilidade moral eram claros – o referido ato nunca deveria ter sido praticado. Contudo, ele o fez. Muitos outros, também, fizeram e continuam fazendo. Ele não é e não será o único a…

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As perdas da vida

A vida nos oferta possibilidades maravilhosas, contudo não podemos deixar de concluir que ela, também, é muito competente em nos machucar. A despeito disso, viver ainda é uma atividade mágica onde as descobertas surgem como encadeamentos de conquistas. Infelizmente, ao vivenciarmos as perdas, sangramos na essência dos afetos. Algumas perdas são parecidas com um terremoto de intensidade considerável, visto que, tudo está tremendo e a instabilidade é geral. Você, as pessoas e os objetos ao seu redor estão tremendo. Não há nada que te forneça segurança. Você se sente desprotegido, confuso e alheio para o mundo. Nada te ancora ou…

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Como reconheço uma pessoa boa?

Hoje, um paciente, por saber que eu escrevo diversos textos/artigos, pediu-me para escrever, brevemente, algo que respondesse ao seguinte questionamento: “como reconheço uma pessoa boa”? Pensei e, assim, escrevi. Compartilho aqui: “É mais difícil encontrar do que reconhecer uma pessoa de fato boa. Mas caso você a encontre, compreenda que essa pessoa é boa não pelo desejo de ser bom, mas pela virtuosidade espontânea de gerar bondade. A pessoa boa não precisa se mostrar como um ser bom, visto que, ele já é. Isto é autóctone e inato. Se é natural, a bondade surge em encadeamentos e como consequência do…

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