Vivendo nas ruas

Já tive uns 5 pacientes que foram moradores de rua. Ao entrevistá-los, um conteúdo em comum chamava a minha atenção – as relações nas ruas. Nenhum deles se queixava da vivência de rua. Claro que alguns tinham uma patologia psicótica e isso, em alguns momentos, afetava seu julgamento da realidade. Mesmo assim, todos, sem exceção, afirmavam que, na rua, as relações eram mais “humanas e verdadeiras”. Com eles, eu tive o privilégio de aprender sobre as relações entre aqueles que não possuem grana. Tive a honra de escutar histórias verdadeiras sem filtros ou freios sociais. Nenhum deles afirmou que viver…

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E quando o psiquiatra se emociona?

Confesso que, na minha prática, eu sou afetuoso com todos, mas procuro manter o equilíbrio emocional sempre, pois, assim, tenho condições de ajudar mais. Contudo, eu sou humano e, diga-se de passagem, faço questão de ter esse humanismo. Em face disso, faço questão, também, de compartilhar a experiência que tive há 1 semana. Tratava-se de uma consulta de uma querida paciente a qual já atendo há aproximadamente 7 anos. Ela perdeu seu filho. Ela me procurou em decorrência dessa dor que, para mim, é difícil de ser dimensionada. Quando ela me procurou, a dor emocional era tão gigantesca que a…

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Meus pacientes, meus amigos

Qualquer relação entre médico e paciente deve ser pautada pela ética, o humanismo e a terapêutica científica. Há, portanto, limites a serem respeitados bem como um objetivo de tratamento. No entanto, para mim, é impossível tratar alguém sem vinculação afetiva. Não é viável avançar num tratamento sem conquistar a confiança. Não é possível aliviar a dor sem ter cumplicidade, acolhimento, escuta e respeito pela autonomia. Se essa é a minha tese, a verdadeira relação de um médico com o seu paciente representa uma relação de amizade. Sim, uma verdadeira amizade onde o carinho deve prevalecer. O compartilhamento de histórias, medos,…

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Gratidão, um sentimento apaixonante

Hoje, acabei de dar alta a uma paciente que sigo há aproximadamente 5 anos. Foram vários encontros e muitas conversas. Tivemos momentos difíceis em face do seu adoecimento, mas também vivemos momentos nobres em consequência da nossa vinculação. Criamos um belo vínculo. Falo para todos que a psiquiatria verdadeira é essa - uma relação terapêutica que se alimenta do vínculo. Sem ele, as medicações farão muito pouco. Com ele, todas as abordagens de tratamento, farmacológicas ou não, serão sinérgicas. Uma ligação eticamente afetiva faz toda a diferença nas nossas relações com os pacientes. Por isso, é praticamente regra termos um…

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Eu não suporto esse mundo…

Eu costumo aprender e crescer com cada paciente. Sem exceção, todos eles me alimentam de aprendizado e de esperança. Cada luta pela melhora representa um estímulo para continuar seguindo nesse mundo repleto de caos. Mesmo as histórias mais tristes e as situações mais angustiantes, permitem em mim um crescimento de aprendizado além de plantar uma semente de renovação no meu coração. Na última semana, um paciente, gravemente, deprimido fez um relato verdadeiro e inesquecível. Acho, inclusive, que há possibilidade de que exista nele uma sintomatologia psicótica congruente com o humor. Por vezes, o seu niilismo e o seu pessimismo pareciam…

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Em meio à dor, o amor

Atuar como psiquiatra traz uma tempestade de possibilidades. O psiquiatra atento e atencioso vivencia de tudo e percebe um enovelado de sentimentos. As histórias são diversas. Os sintomas são diferentes. Os personagens são vários. A cada dia, uma imensidão de descobertas. Costumo dizer que aquele psiquiatra, que realmente se vincula ao paciente, é capaz de sentir parte dos sentimentos do próprio paciente. Isso é inevitável. Somos envolvidos pelas alegrias das conquistas e felicidades dos nossos pacientes, mas, também, somos atingidos e sofremos com as dores e as tristezas que surgem na vida deles. Enfim, todos os sentimentos extravasam e tocam…

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A célula neoplásica teme a vida

Ontem, eu atendi uma paciente deprimida e a sua depressão tinha causa material. Há algumas semanas ela tinha recebido o diagnóstico de uma neoplasia. A sua estrutura emocional foi abalada. O medo do futuro tomou conta dela. A sensação de impotência e fragilidade, frente àquela situação angustiante, foi gradativa. Ela me procurou para tratar a depressão. Portanto, ela queria um remédio para confrontar a tristeza, o desânimo, a insegurança, a falta de energia, a ansiedade e o pouco sono. Claro que ela saiu da minha consulta com uma prescrição farmacológica, mas isso seria muito pouco. Era preciso motivá-la para o…

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Lembranças de natal

Por incrível que pareça, o meu consultório, no final do ano, sempre está lotado e, em alguns dias, ainda preciso encaixar pacientes em horários extras. Entendo que dois fatores possam influenciar esse fenômeno: o primeiro seria o fato de outros colegas psiquiatras estarem viajando e o segundo seria a intensidade desse período de festas. Ao final do ano, nas festas natalinas, muitos tendem a reavaliar a própria vida e suas atitudes. É um período fértil para reflexões e demandas existenciais. Portanto, em face disso, é um período árduo de trabalho. Pelo menos para mim que costumo trabalhar nessa época. Mesmo…

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Ela partiu

Ela partiu Sou rabiscado e bem rabiscado mesmo. Talvez, quem sabe, até fique mais. Um desses rabiscos (a imagem acoplada a esse pequeno texto) permitiu uma bela história. Uma história com uma afetuosa paciente. Ela me procurou para tratar sintomas ansiosos e depressivos reativos à situação de ter recebido o diagnóstico de uma grave doença a qual não tinha perspectiva de cura limitando sua expectativa de vida. Atenta, esperta e com uma energia vital sem igual. Assim, mesmo sintomática, ela se apresentou já na primeira consulta. O grande motivador para aquele atendimento era a dúvida de como se poderia viver…

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Uma paciente doce

Viver é esplêndido a despeito da enorme habilidade da vida em nos machucar. A nossa jornada é repleta de revés e obstáculos. É comum que eles nos batam e, por vozes, eles nos batem com muita força. A vida, sem dúvidas, põe nossa resiliência em constante avaliação e, ao sermos testados, vamos seguindo e dando os nossos pulos. Na última semana, atendi uma jovem com uma história muito dolorosa. Perdas físicas e emocionais recorrentes num pequeno espaço de tempo. Algo difícil, inclusive, de entender. Nessas horas, dentro da minha cabeça, construo um foco - a necessidade de dar uma nova…

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