Vivendo nas ruas

morador de rua

Já tive uns 5 pacientes que foram moradores de rua. Ao entrevistá-los, um conteúdo em comum chamava a minha atenção – as relações nas ruas. Nenhum deles se queixava da vivência de rua. Claro que alguns tinham uma patologia psicótica e isso, em alguns momentos, afetava seu julgamento da realidade. Mesmo assim, todos, sem exceção, afirmavam que, na rua, as relações eram mais “humanas e verdadeiras”.

Com eles, eu tive o privilégio de aprender sobre as relações entre aqueles que não possuem grana. Tive a honra de escutar histórias verdadeiras sem filtros ou freios sociais. Nenhum deles afirmou que viver na rua é algo que merece regozijo ou felicidade. No entanto, por outro lado, todos preferiam viver lá a viver na nossa sociedade.

Por ser uma pessoa, inquietamente, curiosa a respeito dos fenômenos humanos, eu queria entender o porquê dessa escolha pela rua. Por que alguns deles, que tinham moradia e uma vida, preferiam as ruas? Seria isso uma mera quebra da ordem dos processos mentais provocada pelas suas doenças?

Essa foi a resposta de um dos pacientes a qual tinha muita similaridade com as descrições dos demais. Assim, ele falou:

“doutor, é na rua que encontramos humanidade. Como todos nós não tínhamos nada, a verdade prevalecia. Sempre que um tem mais do que o outro, haverá mentira, hipocrisia e falsidade. Quando há essas diferenças, muitos dos que dizem gostar de você, na verdade, não gostam. Só existe mesmo é interesse! Assim, é a sua sociedade, caro doutor. Muitos dos que batem nas suas costas querem que, no fundo, você se exploda. Uma vida superficial. Uma vida do “ter” e não do “ser”. Talvez, nem você, doutor, é o que você gostaria de ser. É uma pena, mas isso é a mais pura verdade. Nas ruas, não é assim.. Como não tínhamos nada, o gostar e o não gostar eram verdadeiros. Tudo claro e transparente. Éramos o que queríamos ser. Não importava, portanto, o ter. Nas ruas, quando se gosta ou não se gosta, estamos diante de algo sincero. E quando gostamos, demonstramos isso. Não é fácil dividir a cachaça, a pouca comida, a coberta imunda e o espaço sujo. Mesmo assim, nós dividíamos. Os desavisados podem achar que é pouco ao usarem o referencial de vida deles. No entanto, era tudo o que tínhamos. Você divide tudo o que você tem com aqueles que estão ao seu lado. Duvido que vocês façam isso nas suas vidas. Lá, eu era livre. Aqui, eu sou prisioneiro da infelicidade.”

Enfim, podemos tecer inúmeras críticas a essa forma de viver e de pensar. Todavia, essa fala nos faz refletir sobre como vivemos e de que forma nos relacionamos. Usando alguns trechos do relato do paciente, eu questiono se: Somos livres? Somos sinceros? Se nós gostamos, de fato, das pessoas ou se somos meros interesseiros?

Régis Eric Maia Barros