Em meio à dor, o amor

o amor

Atuar como psiquiatra traz uma tempestade de possibilidades. O psiquiatra atento e atencioso vivencia de tudo e percebe um enovelado de sentimentos. As histórias são diversas. Os sintomas são diferentes. Os personagens são vários.

A cada dia, uma imensidão de descobertas. Costumo dizer que aquele psiquiatra, que realmente se vincula ao paciente, é capaz de sentir parte dos sentimentos do próprio paciente. Isso é inevitável. Somos envolvidos pelas alegrias das conquistas e felicidades dos nossos pacientes, mas, também, somos atingidos e sofremos com as dores e as tristezas que surgem na vida deles. Enfim, todos os sentimentos extravasam e tocam o nosso coração de psiquiatra. Assim, caminhamos e continuamos a caminhar. Desse jeito, é a prática e a labuta de um psiquiatra. Talvez, quem sabe, isso seja até um dos fatores responsáveis pela fascinante possibilidade de ser psiquiatra.

Dentre as várias questões apaixonantes na arte de atuar como psiquiatra, eu descreverei, nesse pequeno artigo, uma delas: a possibilidade de ver que o amor pode superar a dor. Para mim, isso é mágico e gera um conforto emocional imenso. Em meio às histórias mais tenebrosas, podemos observar o amor pulsante. Pacientes gravemente deprimidos que descrevem seu amor pelos filhos. Pacientes psicóticos e, por vezes, em surto que são protegidos pelos seus familiares com um amor sublime imensurável. Em meio ao caos da dor emocional, a proteção de muitos amigos. Confrontando o desespero da perda, o desejo de continuar e valorizar a vida. A resiliência, ora atacada por essa vida intensa, fazendo frente às mais diversas formas de adversidade. O desencontro, promovido pela dor, sendo contra-atacado pelo encontro fomentado pelo amor.

Enfim, isso acontece e, na minha prática diária, tenho a sensibilidade de perceber. Por isso, a psiquiatria comprova, pelo menos para mim, a potência do amor. Esse amor, tão belo e envolvente, aparece todos os dias nos consultórios dos psiquiatras. Eu o vejo. Eu o sinto. Mesmo que o emocional do paciente esteja despedaçado, ele, o amor, dá o ar da sua graça. Se pudermos senti-lo, ajudaremos mais. Como dito por Shakespeare, “o amor não se vê com os olhos, mas com o coração”.

Régis Eric Maia Barros