E quando o psiquiatra se emociona?

Escute o silêncio

Confesso que, na minha prática, eu sou afetuoso com todos, mas procuro manter o equilíbrio emocional sempre, pois, assim, tenho condições de ajudar mais. Contudo, eu sou humano e, diga-se de passagem, faço questão de ter esse humanismo. Em face disso, faço questão, também, de compartilhar a experiência que tive há 1 semana. Tratava-se de uma consulta de uma querida paciente a qual já atendo há aproximadamente 7 anos. Ela perdeu seu filho. Ela me procurou em decorrência dessa dor que, para mim, é difícil de ser dimensionada. Quando ela me procurou, a dor emocional era tão gigantesca que a sua estrutura emocional estava esfacelada. Ela estava confusa e perdida. Ela estava imersa na amargura. Ela não sabia o que era capaz de mantê-la lúcida e viva nesse mundo. Foram anos difíceis. Foram sessões e consultas intensas. Dividimos momentos fortes. Criamos entre nós uma confiança e um respeito sem igual. Compartilhamos amor e afeto. Eu lembro que, durante os 6 meses iniciais de tratamento, o tempo de atendimento era preenchido basicamente pelo seu choro. Um choro sincero. Um choro doído. Um choro de saudade. O meu papel era respeitar o silêncio e acolher o choro. O meu papel era mostrar minha presença mesmo que ela fosse preenchida pelo silêncio. E assim foi feito. O tempo passou. Ela foi melhorando. Claro que a saudade e a lembrança da ausência ainda perturbam. Como dito pelo Teatro Mágico, “a ausência faz silêncio em todo lugar”. No entanto, ela foi se permitindo viver e foi reconstruindo sua vida. Ela foi redimensionando seu papel. Uma mãe linda. Uma avó divina. Uma mulher guerreira. Uma pessoa que tive sorte de conhecer. Recentemente, nos últimos dias, durante uma de suas consultas, ela me agradeceu pelas primeiras consultas. Eu, de início, não entendi muito, visto que essas consultas foram caracterizadas pelo seu choro constante e o meu silêncio respeitoso. Perguntei o motivo do agradecimento e ela me respondeu que “a atitude de escutar o seu choro foi um propulsor para a sua melhora”. Segundo ela, “poucos querem e têm condições de escutar o choro”. Ela complementou dizendo que “meu choro encontrou um refúgio de paz e amor em você”. Ela me agradeceu, ela me beijou e ela disse que eu estava sempre nas suas orações. Enfim, eu me emocionei e continuo me emocionando com esse relato. Faço questão de compartilhar com todos.

Régis Eric Maia Barros