Ela partiu

Ela partiu

Sou rabiscado e bem rabiscado mesmo. Talvez, quem sabe, até fique mais. Um desses rabiscos (a imagem acoplada a esse pequeno texto) permitiu uma bela história. Uma história com uma afetuosa paciente. Ela me procurou para tratar sintomas ansiosos e depressivos reativos à situação de ter recebido o diagnóstico de uma grave doença a qual não tinha perspectiva de cura limitando sua expectativa de vida. Atenta, esperta e com uma energia vital sem igual. Assim, mesmo sintomática, ela se apresentou já na primeira consulta. O grande motivador para aquele atendimento era a dúvida de como se poderia viver a partir do momento em que se sabe de algo dessa natureza. Portanto, a dúvida, o medo e a incerteza permeavam tudo. No primeiro atendimento, já no início da consulta, ela percebeu os rabiscos no meu braço os quais apareciam além das mangas da camisa. De maneira alegre e curiosa, ela pediu para que eu dissesse qual era a longa frase de um dos rabiscos que, coberto pela camisa, só aparecia em parte. Eu mostrei e li para ela – “A vida anuncia que renuncia a morte, dentro de nós”. Expliquei que era um pequeno trecho de uma bela música do Teatro Mágico cujo nome é Perdoando o Adeus. A partir de então, resumidamente, o que posso dizer é que fui testemunha ocular de uma grande jornada de vida e de felicidade. A despeito da doença e do avanço da mesma, ela viveu intensamente dentro das possibilidades da vida. Ela não se entregou e se jogou na vida de cabeça e de coração aberto. Tenho dúvidas, inclusive, se esses anos vividos, após o diagnóstico, foram maiores e mais intensos do que todos os anos antes dele. Ela espalhava vida e fez isso até o fim. Ela viveu intensamente e entendeu que a vida é uma dádiva e que precisa ser degustada até os últimos segundos. Isso é um papel nosso. Isso é uma responsabilidade de cada um. Nas situações limites da vida, que são comuns, ou escolhemos nos entregar ou escolhemos viver. Afirmo que sou um felizardo, pois pude testemunhar a busca dela pela vida. Viver é isso: permitir-se viver. Vida é isso: viver sem medo e sem racionalizações. O tempo urge e, ao deixar de viver, vamos morrendo. O tempo passou e a doença avançou. Ela partiu, mas não partiu, visto que, ascendeu e evoluiu. Mais ainda, ela também não partiu desse plano, pois sua energia de vida ainda vibra aqui. No meu consultório, de onde escrevo esse pequeno relato, a sua energia é vívida e vivaz. Vamos lá! Precisamos usar dessa energia para nos estimular viver nessa mesma intensidade.

Régis Eric Maia Barros