Meus pacientes, meus amigos

médico e paciente maos dadas

Qualquer relação entre médico e paciente deve ser pautada pela ética, o humanismo e a terapêutica científica. Há, portanto, limites a serem respeitados bem como um objetivo de tratamento. No entanto, para mim, é impossível tratar alguém sem vinculação afetiva. Não é viável avançar num tratamento sem conquistar a confiança. Não é possível aliviar a dor sem ter cumplicidade, acolhimento, escuta e respeito pela autonomia. Se essa é a minha tese, a verdadeira relação de um médico com o seu paciente representa uma relação de amizade. Sim, uma verdadeira amizade onde o carinho deve prevalecer. O compartilhamento de histórias, medos, frustrações e desejos é um ato convencional na relação médico-paciente. Em qual relação isso poderia acontecer senão numa relação de amizade? Na relação do médico com o paciente há momentos de risos, há períodos de choro bem como há espaço para o silêncio. Amigo é exatamente isso: aquele capaz de compartilhar contigo todos os seus estados de afeto. O verdadeiro médico, obrigatoriamente, tem que se envolver de forma ética com o seu paciente. Por vezes, nós, médicos, escutamos histórias únicas dos nossos pacientes que não foram compartilhadas com ninguém, mas somente conosco. Quando estamos com os nossos pacientes, sentimos o olhar, observamos o respirar e escutamos os gestos. De fato, uma prova de amizade. Se a relação médico-paciente não prosperar com amizade, atrevo-me a afirmar que nada terapêutico acontecerá no tratamento. Nós, médicos, torcemos pelos pacientes. Nós, médicos, sofremos com os pacientes. Nós, médicos, ficamos felizes com a felicidade dos pacientes. Nós, médicos, choramos escondidos com o choro sincero dos pacientes. Assim, deve ser. Assim, tem que ser. Afirmo e divulgo: meus pacientes são meus amigos. Eles sabem disso. Eles sentem isso. A diferença de qualquer tratamento estará nisso. O mesmo medicamento ou procedimento terá resultado completamente diferente entre as duas formas possíveis de relação (fria/formal e afetiva/amizade). O maior e melhor remédio é o médico. Um médico amigo é tão terapêutico que fica difícil de mensurar. Aos colegas médicos, falo isso. Aos meus alunos, futuros médicos, tento mostrar e provar isso. Afirmo que, na prática médica, há de se cultivar a relação com o paciente, pois, como bem dito por Carlos Drummond de Andrade, “a amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas”. Precisamos cultivar os pacientes e sermos cultivados por eles. Isso é um potente remédio.

Régis Eric Maia Barros