Uma paciente doce

dom helder camara

Viver é esplêndido a despeito da enorme habilidade da vida em nos machucar. A nossa jornada é repleta de revés e obstáculos. É comum que eles nos batam e, por vozes, eles nos batem com muita força. A vida, sem dúvidas, põe nossa resiliência em constante avaliação e, ao sermos testados, vamos seguindo e dando os nossos pulos.

Na última semana, atendi uma jovem com uma história muito dolorosa. Perdas físicas e emocionais recorrentes num pequeno espaço de tempo. Algo difícil, inclusive, de entender. Nessas horas, dentro da minha cabeça, construo um foco – a necessidade de dar uma nova significância à vida para promover um novo desejo de continuar. Esse é um dos meus focos. Até lá, sou anteparo da dor e, mais ainda, empresto meu aparato mental e emocional para dividir e aliviar aquela dor ensurdecedora. Sem dúvidas, é muito desgastante, contudo é bem gratificante ter essa missão. Entendo que poucos têm essa disponibilidade e capacidade.

Uma coisa me chamou a atenção nesse atendimento. Frente a tamanha dor, todos nós esperaríamos encontrar uma pessoa destroçada e desorganizada. Eis que encontro uma pessoa doce e de beleza emocional sem igual. Uma pessoa capaz de mostrar força mesmo dentro de tamanha provação. Uma pessoa espiritualizada e bondosa cujo sorriso apaixona. Uma pessoa com vontade de continuar lutando pela sua vida. Tive uma grata surpresa e, mais ainda, uma admiração em vê-la com toda aquela capacidade resiliente.

Na primeira consulta, citei para ela essa reflexão de Dom Hélder Câmara – “Há criaturas como a cana: mesmo postas na moenda, esmagadas de todo, reduzidas a bagaço, só sabem dar doçura”. Afirmei que ela era uma dessas pessoas. Espero voltar aqui e escrever a evolução terapêutica desse vínculo na certeza de que aprenderei muito e me sentirei enriquecido.

Régis Eric Maia Barros