O alívio de um potencial suicida

Tenho um paciente bem culto e diferenciado. Ele tem mais de uma formação acadêmica. Uma pessoa de conhecimento vasto com um gosto apurado pela filosofia e as ciências humanas. Ele é portador de transtorno afetivo bipolar e, como de praxe, tem episódios afetivos de elação de humor e de humor deprimido. Na última consulta que foi antecipada a pedido dele, observei uma sintomatologia depressiva perigosa. Junto dela, havia um olhar pessimista sobre a vida e uma desesperança que me preocuparam. Assim, ele se colocou: “Doutor, estou preocupado comigo. A vida está sem graça. Não estou conseguindo perceber e dar sentido…

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Audiência Pública no Senado Federal – Cannabis e descriminalização

Descriminalização do cultivo da Cannabis para uso próprio Esse artigo contém algumas reflexões debatidas por mim na audiência pública do Senado Federal a qual foi organizada pela sua Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa. O meu papel na referida audiência foi, sobretudo, falar, resumidamente, sobre alguns pontos que me fazem defender a descriminalização do cultivo da Cannabis para uso próprio. Pois bem, inicio esse debate questionando o modelo que a sociedade brasileira vem tratando o tema. Há uma dicotomia empobrecida por esse maniqueísmo atual que, sempre, tem maquiagem ideológica. Infelizmente, esse é um padrão replicado pelo próprio modus operandi…

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Gostar de si mesmo…

Passamos parte da vida tentando agradar aos outros. Nisso, esquecemos de nós e abdicamos de nos gostar. Qual seria o preço dessa escolha, caso não percebamos a nossa importância? O ato de se gostar não significa negar a importância da alteridade. Pelo contrário, quando nos percebemos, temos a possibilidade de ir muito mais além na tarefa de ajudar aos outros. E o motivo disso é simples: não esperaremos nada em troca. Viver esperando a validação do externo é um suplício. Já viver olhando para si mesmo e valorizando suas conquistas e o seu potencial é a chave para um futuro…

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Cuidar de quem chora

O final da noite, e mais especificamente o momento em que coloco meu lindo Leozinho para dormir, sempre me reserva algo belo. Numa dessas noites, por saber que sou um médico da “mente” (forma como o Leozinho me define), ele me perguntou: “papai como é cuidar de quem chora?”. Para respondê-lo, eu precisava criar um modelo de comunicação que permitisse o entendimento e, ao mesmo tempo, que, de fato, respondesse aquela demanda da pergunta. O Leozinho, por ser sagaz e sensível, necessita sempre de uma resposta capaz de aliviar sua dúvida. Pensei e, assim, respondi: “Filhinho, cuidar de quem chora…

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A felicidade está no simples

Na minha prática de trabalho como psiquiatra, eu atendo adultos que sofrem e que choram. Na verdade, quando estou diante de adultos, que padecem de sofrimento emocional, eu vejo e escuto de tudo. Todo o processo de adoecer finda em angústia e dor. O que me chama mais a atenção é o fato de, geralmente, a gênese dos sintomas terem, como mola propulsora, questões com outros adultos. Diante disso, defendo uma tese de que as relações adultas podem nos expor ao sofrimento. De fato, ao conversar com as crianças ou quando percebemos suas relações, não encontramos alguns sentimentos e comportamentos,…

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Pelo moralismo

Quantas perversidades foram feitas pela busca da moral? Quantas crueldades foram construídas, ao longo da história, para purgar o que era considerado errado? As teses reacionárias se sustentam nisso, ou seja, um discurso de forte “moral” que se apega ao fake de construções moralistas puras. Portanto, os reacionários “moralistas” definem o que não é límpido e certo e, a partir de então, perseguem e eliminam. Na verdade, a roupagem do bom é usada plenamente para o mal. O discurso moral reacionário é adjetivado, logo ele não permite sequer a possibilidade do pensar diferente. Pelo contrário, a diferença é lida como…

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Aos alunos do 6º período da medicina UniCeub (2017.2)

Eis que uma nova etapa é finalizada. Nessa semana, terminamos o semestre. Portanto, as férias, tão desejadas, chegaram. De fato, a necessidade de recarregar as baterias é algo bem oportuno. O curso médico gera desgastes surreais. Defendo, inclusive, que tal situação precisa ser revista pela possibilidade de proporcionar vários adoecimentos. Com essa mensagem, venho desejar boas férias. Foi um prazer e uma honra conviver esse semestre com vocês, futuros colegas. A jornada, durante a graduação em medicina, é árdua, mas também apaixonante. Ficam muitos aprendizados e inúmeras saudades. A nostalgia sempre estará presente nesse caminhar da profissão médica. Mesmo na…

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Ele é preto…

O principal conteúdo desse artigo, que escrevo agora, já se tornou redundante nas minhas escritas, porém, infelizmente, por tudo que surge, é necessário refletir novamente sobre o tema. Costumo dizer que os tempos atuais são árduos, pois, em meio a tanta maldade, fica difícil extrair esperança. Quando estamos defronte da TV, nós assistimos pessoas midiáticas falando coisas que são capazes de nos fazer olhar para o futuro com certo receio e medo. Daí, escutamos que “não estupro você, por que você não merece”. Em pleno século 21, somos, também, surpreendidos com a sonora fala de que “ser gay é produto…

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“Foi devido o amor…”

Ontem, realizei mais uma perícia domiciliar. Dentro do carro oficial, eu li, novamente, a inicial do processo. Durante o trajeto, costumo checar os documentos médicos e os autos processuais a fim de estruturar o meu trabalho pericial. Tratava-se de um caso de interdição no qual o periciando tinha um diagnóstico de retardo mental profundo. Portanto, imaginei que seria algo simples em face da materialidade dos prejuízos em decorrência da doença. Chegando ao domicílio das partes, localizado numa região pobre de uma cidade satélite do DF, pude iniciar a perícia. O periciando, de fato, era bem regredido, empobrecido e dependia dos…

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Quando fecho os olhos

Quando fecho os olhos, eu vejo casais apaixonados que se beijam. Vejo também crianças correndo atrás de uma bola. Elas correm de forma despreocupada e as suas gargalhadas entram pelos meus ouvidos. Quando fecho os olhos, eu percebo caridade, alteridade, justiça e altruísmo. Vejo um mundo fraternal. Vejo pessoas desprovidas de preconceito. Sinto que ninguém julga o outro pela sua cor, identidade de gênero, sexualidade, situação social e perspectiva política. Quando fecho os olhos, eu enxergo o amor. Um amor tão gostoso que faz meus olhos se mexerem, mesmo que eles estejam fechados. Quando fecho os olhos, sinto o cheiro…

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