Cuidar de quem chora

ECG abraço

O final da noite, e mais especificamente o momento em que coloco meu lindo Leozinho para dormir, sempre me reserva algo belo. Numa dessas noites, por saber que sou um médico da “mente” (forma como o Leozinho me define), ele me perguntou: “papai como é cuidar de quem chora?”.

Para respondê-lo, eu precisava criar um modelo de comunicação que permitisse o entendimento e, ao mesmo tempo, que, de fato, respondesse aquela demanda da pergunta. O Leozinho, por ser sagaz e sensível, necessita sempre de uma resposta capaz de aliviar sua dúvida. Pensei e, assim, respondi:

“Filhinho, cuidar de quem chora é importante, pois, se não abraçarmos quem está chorando, não poderemos trazer alegrias. Você se lembra de quando você teve aquela virose do vírus da dengue. Nela, você teve até dor nas perninhas que não deixava você andar. Você lembra? Então, você chorou. Papai te abraçou e ficou dormindo com você até a virose passar. Você lembra? Papai disse para você que a dor passaria e que, até lá, eu ficaria abraçadinho com você. E, enquanto isso, você poderia chorar sempre que quisesse. Lembra disso? Você chorou algumas vezes. Daí, quando o choro era mais forte, papai abraçava você bem mais apertadinho. Depois de um tempo, a virose passou e o choro acabou. Agora, eu abraço você sem precisar ser um abraço para aliviar o “dodói”. Mas, se outro “dodói” vier, abraçarei você de novo pelo tempo que for preciso. Então, papai, seu médico da “mente”, abraça quem chora. O trabalho do papai é abraçar quem está chorando até o dodói deles passar. Às vezes, esse abraço demora bem “muitão”. Outras vezes, não. Quando as pessoas procuram papai, geralmente, existe muito choro mesmo. Os “dodóis” dos adultos costumam doer muito e, de vez em quando, demoram a passar. Sempre que isso acontece, eles procuram o papai ou outros médicos da “mente”, iguais o papai. Se existe choro filhinho, nós abraçamos. Se o choro for forte, nosso abraço é bem forte também. Se o choro demora a passar, ficamos abraçadinhos até o choro diminuir ou desaparecer. Então, filho, cuidar de quem chora é muito legal, porque precisamos ser fortes para agüentar o choro de quem está doentinho. Às vezes, filhinho, até temos vontade de chorar junto com eles, mas seguramos o nosso choro e abraçamos mais forte cada um deles. O verdadeiro médico da “mente” usa o abraço como o melhor remédio. Agora, vamos fechar os olhos para dormir, porque está tarde e amanhã tem escolinha cedinho da manhã”.

Ele deu um beijo no meu rosto, pegou minha mão e virou para parede. Ele sempre dorme encostadinho na parede. Antes de adormecer, ele disse baixinho: “papai, eu gostei muito quando você me abraçou no dia que estava chorando”. Pouco tempo depois, ele dormiu.

Régis Eric Maia Barros