“Foi devido o amor…”

luz no fim do túnel

Ontem, realizei mais uma perícia domiciliar. Dentro do carro oficial, eu li, novamente, a inicial do processo. Durante o trajeto, costumo checar os documentos médicos e os autos processuais a fim de estruturar o meu trabalho pericial. Tratava-se de um caso de interdição no qual o periciando tinha um diagnóstico de retardo mental profundo. Portanto, imaginei que seria algo simples em face da materialidade dos prejuízos em decorrência da doença.

Chegando ao domicílio das partes, localizado numa região pobre de uma cidade satélite do DF, pude iniciar a perícia. O periciando, de fato, era bem regredido, empobrecido e dependia dos familiares para todas as atividades da vida. Ele estava restrito ao leito e se alimentava por gastrostomia. Ele nunca falou nem deambulou. Ele necessitava de cuidados diários e constantes. A requerente, que é sua mãe adotiva, descreveu rapidamente a sua história. Ela disse que “seu filho foi adotado aos 5 anos de idade. Ele era filho de um casal de ciganos e nasceu no próprio acampamento cigano o qual ficava próximo a sua residência. O seu parto foi, portanto, sem assistência médica e, possivelmente, ele teve algum problema nesse momento. Ele nunca andou. Ele nunca falou. Ele sentou aos 5 anos. Como eu fazia trabalhos de caridade pela igreja da minha cidade, eu visitei esse acampamento. Eu, então, vi aquela criança em estado de penúria. Ele estava bem desnutrido e descuidado. Ele era bem limitado. Seus pais biológicos acabaram por abandoná-lo no acampamento e as pessoas de lá não conseguiam cuidar dele. Inclusive, numa dessas visitas, eles me informaram que ele iria acabar morrendo pela impossibilidade de ter cuidados. Foi então que eu conversei com meu esposo e decidimos adotá-lo. Decidimos assumi-lo. Decidimos protegê-lo. E estamos com ele, nessa missão, até os dias de hoje”.

Não havia dúvidas da necessidade de uma interdição. Essa conclusão estava clara e se mostrava cabível e verossímil. Mas, diante daquela situação, uma reflexão surgiu na minha cabeça. Talvez, o surgimento dela, nos meus pensamentos, tenha a ver com o tipo de trabalho que faço diariamente. Nesses trabalhos periciais, é costumeiro testemunhar algumas situações de agressões, descuido e, até, uso de um incapaz para ganhos secundários, sobretudo financeiros. Nesse caso, o que pude perceber foi exatamente o contrário – uma doação plena de carinho, fraternidade, altruísmo, alteridade e caridade. Acredito que pouquíssimas pessoas fariam o que os pais desse periciando fizeram. Desse modo, perguntei da seguinte forma: “com todo respeito, permita-me fazer uma pergunta para a senhora: o que a senhora acredita que a levou, junto com o seu esposo, a encaminhar essa adoção?”

Ela sorriu. Pegou sua bíblia e abriu numa página marcada. Ela leu um trecho. Mais especificamente 1 João 3:14, que assim dizia: “sabemos que já passamos da morte para a vida porque amamos nossos irmãos”. Ela refletiu logo em seguida: “quem não ama permanece na morte”. Então, após essa reflexão, ela olhou nos meus olhos e respondeu: “foi devido o amor, doutor”. Ela afirmou “que não há vida sem o amor e, ao amar, ela vive e a vida continuará a acontecer”. Ela concluiu que “não é o amor dela por ele o mais forte, mas sim o amor dele (o periciando) por ela e esse amor recíproco mantém a vida pulsante”. Finalizei a perícia e agradeci suas palavras.

É isso! Em meio à escuridão, aquela senhora jogou um feixe de luz que iluminou a minha esperança por um mundo mais fraternal.

Régis Eric Maia Barros