O alívio de um potencial suicida

prevenção do suicídio

Tenho um paciente bem culto e diferenciado. Ele tem mais de uma formação acadêmica. Uma pessoa de conhecimento vasto com um gosto apurado pela filosofia e as ciências humanas. Ele é portador de transtorno afetivo bipolar e, como de praxe, tem episódios afetivos de elação de humor e de humor deprimido. Na última consulta que foi antecipada a pedido dele, observei uma sintomatologia depressiva perigosa. Junto dela, havia um olhar pessimista sobre a vida e uma desesperança que me preocuparam.

Assim, ele se colocou:

“Doutor, estou preocupado comigo. A vida está sem graça. Não estou conseguindo perceber e dar sentido à minha vida. Sinto a morte mais de perto como nunca senti. Sempre li ensaios filosóficos onde o suicídio permeava o conteúdo. Mas, agora, parece que o texto e as palavras falam de forma diferente comigo. Parece que o desejo de partir é mais palpável. Parece que as leituras me chamam para isso. Antecipei a consulta com medo de que tudo isso cresça”.

Escutei de forma atenta, respeitosa e reflexiva. Coloquei-me a sua disposição. Expliquei que existe uma diferença em não “ter sentido” e não “perceber o sentido” por estar deprimido e angustiado. Pontuei que a depressão nos engana nessa análise e pode-nos conduzir a escolher partir. Mas, na verdade, existem, sim, possibilidades de ajuda. Afirmei que ele não estava só. Eu e seus entes queridos estaríamos com ele em todos os momentos, inclusive nesses mais nebulosos. Refleti que a vida é muito habilidosa em nos machucar, contudo, a despeito disso, podemos ter uma vida bela e, por isso, lutaremos juntos por ela. Acolhi seu choro. Percebi sua angustia. Aceitei sua dor. Estabelecemos um contato com alguns dos seus familiares para que pudéssemos trabalhar de forma coesa. Ao final, ajustei as medicações e ressaltei que o meu telefone e o meu “whats” estavam, totalmente, disponíveis para quaisquer conversas, em quaisquer situações e em qualquer momento. Marcamos um retorno bem breve nos dias seguintes. Chamei o familiar, que estava na sala de espera, e construímos uma estratégia, pois, se a vida hoje está em crepúsculo, amanhã, quem sabe, será um dia ensolarado. Finalizei o atendimento e reforcei o nosso trato pela vida.

Antes de sair, ele olhou para mim e, sem conseguir segurar o choro, disse-me de maneira emocionada: “obrigado doutor, sinto-me aliviado”.

Falar do suicídio permite que o potencial suicida se sinta escutado. Acolher alguém que pensa em suicídio faz a diferença sendo capaz de mudar desfechos. Precisamos ter mais “ouvidos” e mais “escutas” para todos que tiverem tais pensamentos. Necessitamos proteger mais usando o ato humano de mostrar que estamos sinceramente preocupados e juntos daqueles que sofrem. Isso alivia e faz a diferença. Se você, que me leu até aqui, está angustiado e sofrendo, procure alguém de confiança para conversar. Vamos mudar isso. É possível. Acredite em mim!

Régis Eric Maia Barros