A “potência” e o “ato” como lógica dos presídios

Dentre as várias questões importantes do conhecimento filosófico aristotélico, eu saliento a existência do ser em ato e potência. Todos nós teríamos, em potência, a possibilidade de sermos seres bons e diferenciados em ato. No entanto, alguns acabam por caminhar noutro caminho. O que poderia ter construído esses caminhos diferentes? Para Aristóteles, há um movimento que direcionaria a potência ao ato. Interpreto que Aristóteles, sabiamente, compreendeu que a existência de qualquer ser em ato demanda de condições para o seu desenvolvimento desde o seu estágio em potência. Por exemplo, imagine a árvore florida, frutífera e bela próxima da sua casa.…

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A diferença no tratamento

  Certa vez um paciente, já sabendo o que iria responder, perguntou-me: “doutor, você sabe o que faz a diferença no tratamento?”. O número amplo de respostas impossibilitou-me responder com certeza. Lembro que falei da efetividade do tratamento. Ele balançou a cabeça de forma negativa com um sorriso descolado na sua face. A reposta, para ele, era outra. Ele, primeiramente, me elogiou e, antes de explicá-la, afirmou que eu aplicava esse diferencial. Assim, ele discorreu:   “doutor, a diferença está no interesse. É fácil notar aqueles que, realmente, estão interessados em nos escutar e ajudar. Sentimos, sim, o interesse do…

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A dualidade do verbo ter

Que verbo interessante. Ele é imperativo e forte, mas, ao mesmo tempo, dúbio. Partindo-se dele é complicado, inclusive, definir posses e o que é realmente ter. Por exemplo, muitos têm muito, mas acabam não tendo nada, enquanto outros têm praticamente nada, mas acabam tendo muito. Confuso e estranho, porém possível de entender. Nessa ciranda das palavras, aparece uma dúvida socrática – o que precisamos, de fato, ter? Geralmente, o verbo ter vincula posses materiais, todavia nada material será capaz de sobrepujar o ter espiritual e emocional. Ter o material nem sempre trará a paz e a felicidade. E o que…

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A mudança no correr

  Quando crianças, nós corríamos alegres e sem pressões. Corríamos a esmo e no intuito de nos sentirmos livres. Corríamos a ponto de topar e machucar os dedos, mas isso não importava, visto que, corríamos com prazer. Quando crianças, o nosso correr não era controlado pelo tempo. Quando crianças, a nossa corrida era, ao mesmo tempo, concreta, pela movimentação muscular, e abstrata pela liberdade pura do correr. Ao correr, como era bom se cansar durante a infância. Como nos faz falta esse tipo de corrida. Os anos passam e a idade adulta chega. Com ela, as responsabilidades saltam e o…

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A quem pagar indenização?

  A dicotomia louca da sociedade brasileira, novamente, vem à tona com o massacre no presídio de Manaus. A análise se deu de forma reducionista como é de costume. A pergunta que agitou os últimos dias era a respeito da legitimidade de indenização às famílias dos presidiários mortos.   O Estado deveria pagar às famílias que foram vítimas dos atos dos presidiários ou às famílias dos presos massacrados e degolados? Para mim, a análise deveria ser mais ampla e menos tosca. O Estado brasileiro, praticamente, inexiste quando falamos de violência e situação prisional.   Esse Estado é ausente na proteção…

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A verdadeira proximidade

  Quem convive ao lado nem sempre está próximo. Não é incomum que aquele (s) que divide (m) espaços comuns aos seus não esteja (m) envolvido (s) com as suas demandas. Na verdade, estar próximo é se mostrar disponível e presente sempre que for necessário. Se você agir assim, você está próximo, mesmo que viva a quilômetros de distância. Estar próximo é compartilhar afetos, sejam eles bons ou não. Estar próximo é torcer e acolher. Estar próximo é permitir. Estar próximo é te aceitar independente do que você pensa, seja ou deseja. Estar próximo é sonhar junto contigo. Estar próximo…

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Eu e a minha mania de sonhar

    Não me canso de sonhar. Acho até que é uma teimosia minha, porém não tenho interesse em mudar. Ao sonhar, sinto-me vivo. Com os sonhos, factíveis ou viajantes, tenho a certeza de que vale a pena continuar. Os sonhos seriam uma forma de autocomunicação de mim para mim mesmo sobre a vida. Uma espécie de chamamento. Tipo assim: “… Régis, a vida é fabulosa! Mergulhe nela e aproveite”. O sonho eleva-me à verdade, afastando-me da mentira. E ressalto que aprendi a viver, verdadeiramente, longe das mentiras. Quando sonho, degusto a possibilidade de me motivar a querer. Querer sempre…

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Medicina além de mercadoria

  Os tempos são cruéis. Eis que se abre um novo paradigma para a medicina. Antes, ela, considerada uma arte, tinha como proposta uma relação médico-paciente duradoura e estruturada. Essa relação, nesse formato, fazia toda diferença.   Independente do acometimento de saúde pelo qual sofre o paciente, se a relação com o paciente for ética, afetuosa, técnica e acolhedora, os diversos resultados terapêuticos são infinitamente melhores. Mesmo assim, a nossa medicina vem caindo num descrédito sem igual.   E qual seriam os motivos?   Para mim vários, mas, nesse pequeno artigo, focarei um deles – a medicina como produto de…

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O sentimento saudade

Saudade é um sentimento que, ao mesmo tempo, ensurdece, enrijece e, caso se agrave, enlouquece. Todos nós já sentimos e, portanto, temos a dimensão do seu poder. Costumo dizer que a saudade machuca pela dor que causa e pela sensação de impotência que lhe acompanha. Ela é uma espécie de navalha que, ao cortar, causa um desconforto latejante. Assim, eu acredito que seja a saudade. E dentro desse meu pensar, eu fui chamado a refletir mais sobre essa temática. Eis que há pouco, ao colocar o meu Leozinho para dormir, fui provocado com a seguinte pergunta dele: “papai, tem algum…

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Eu e a psiquiatria

É um belo casamento. Não me vejo casado com outra especialidade médica. A psiquiatria permite-me ir mais além. Acolher o outro em sofrimento emocional é uma tarefa nobre, humana, cristã e amorosa. Por isso, sou um crítico ácido àqueles que exercem a psiquiatria sem esses princípios. Ter a possibilidade de dividir com os pacientes algumas questões tão deles, e que poucos sabem, vai além da medicina. Na verdade, respeitando os constructos éticos, afirmo que o psiquiatra, que usa desses princípios, consegue ser um grande amigo do paciente cuja amizade é repleta de carinho e afeto. E você, que me lê,…

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