A “potência” e o “ato” como lógica dos presídios

Aristoteles
Dentre as várias questões importantes do conhecimento filosófico aristotélico, eu saliento a existência do ser em ato e potência. Todos nós teríamos, em potência, a possibilidade de sermos seres bons e diferenciados em ato. No entanto, alguns acabam por caminhar noutro caminho. O que poderia ter construído esses caminhos diferentes? Para Aristóteles, há um movimento que direcionaria a potência ao ato. Interpreto que Aristóteles, sabiamente, compreendeu que a existência de qualquer ser em ato demanda de condições para o seu desenvolvimento desde o seu estágio em potência. Por exemplo, imagine a árvore florida, frutífera e bela próxima da sua casa. Um dia ela foi uma pequena semente. Claro que, em potência, essa semente poderia ser uma árvore, mas ela só passou a sê-la depois que as condições foram favoráveis para tal. Portanto, um terreno fértil, uma umidade adequada e uma luminosidade positiva se fizeram necessárias. Sem isso, talvez, ela nem evoluísse para árvore e permanecesse no estado de semente não viável. Sem isso, talvez, ela se transformasse numa árvore menor e incapaz de dar frutos suculentos. Então, sem as condições adequadas (movimento de mudança aristotélico), a história pode ser diferente. Desse modo, qual movimento nos fez pessoas ditas “boas” e o qual movimentos foram capazes de gerar desviantes e presidiários? Esse é o cerne da questão! Não vejo nenhuma discussão nesse caminho. As únicas falas que aparecem estão relacionadas ao gozo de muitos pelas mortes e decapitações provenientes dos massacres no presídios. As únicas condutas e as posturas tomadas foram dividir membros das facções, transferir líderes das facções e criar novos presídios. Essas falas e atitudes não resolverão absolutamente nada. Isso é superficial e parece maquiagem. É uma gambiarra e um faz de conta. Daqui a pouco novos presos entram, novos líderes surgem, a cegueira do Estado e da sociedade continua e tudo voltará. Ou agimos na coisa em potência para mudar a história criando um ato melhor, ou nada mudará. Será um jogo perdido. Daí, poderemos criar quantos presídios quisermos. Eles sempre estarão lotados e prestes a explodir. Há de se agir, sobretudo, na semente (ser em potência), pois, quando a árvore (ser em ato) estiver repleta de problemas, será muito mais complicado reverter o processo.
 
Régis Eric Maia Barros