O sentimento saudade

a-menina-e-o-passaro-encantado

Saudade é um sentimento que, ao mesmo tempo, ensurdece, enrijece e, caso se agrave, enlouquece. Todos nós já sentimos e, portanto, temos a dimensão do seu poder. Costumo dizer que a saudade machuca pela dor que causa e pela sensação de impotência que lhe acompanha. Ela é uma espécie de navalha que, ao cortar, causa um desconforto latejante.

Assim, eu acredito que seja a saudade. E dentro desse meu pensar, eu fui chamado a refletir mais sobre essa temática. Eis que há pouco, ao colocar o meu Leozinho para dormir, fui provocado com a seguinte pergunta dele: “papai, tem algum jeito de não ficar triste com a saudade?”.

Parei e pensei por onde poderia começar. Confesso que, de início, não sabia por onde. Lembrei-me do mestre Rubem Alves e do seu pequeno livro intitulado “A Menina e o Pássaro Encantado”. Para mim, esse pequeno livro é uma obra antológica pela riqueza de como a saudade é abordada.

Então, fui à minha biblioteca e trouxe o livro (primeira foto em anexo). Como a história é curtinha e apaixonante, eu a li toda para o Leozinho. Salientei o trecho que considero a reflexão mais bela sobre a saudade que tive contato até os dias de hoje – “… sem a saudade, o amor irá embora…”.

Perfeito! Por detrás da dor da saudade, sempre há amor. O que é saudoso, obrigatoriamente, vincula, em si, afetos belos e grandiosos. Não sentimos saudades daquilo que nos machuca e maltrata. A saudade é uma forma de dizer que sentimos falta e, desse modo, sempre é um meio de manter aquele amor vivo e pulsante. A saudade dói, mas expressa o quanto foi bom ter vivido tudo aquilo.

Ao final da historinha, o Leozinho pediu para ver o livro. Ele folheou as ilustrações e percebeu que tinha algo escrito na contracapa. Ele pediu para que eu lesse (segunda foto em anexo). Era uma dedicatória que fiz a Veca, minha esposa e mãe do Leozinho. Naquela época (2003), a vida nos distanciou por conta das residências médicas. A dor para ambos foi cruel. Por conseguinte, eu a presenteei com esse livro e faço, aqui, o seguinte destaque o qual retirei da dedicatória:

“… com certeza, tem um pássaro encantado dentro de você”.

Já perto de dormir, o Leozinho pegou no meu rosto e o acariciou. Por fim, ele disse: “papai, a saudade, desse jeito, não vai doer tanto”. Eu respondi: “vai não filhinho, porque a saudade faz com que a gente viva, de novo, o que foi bom”.

Régis Eric Maia Barros