Cumplicidade, a prova do vínculo

Escuto tantas histórias. Na jornada de psiquiatra e terapeuta, eu escuto de tudo. Acredito, inclusive, que eu seja um dos poucos ou, quem sabe, um dos únicos que sabem de algumas intimidades dos meus pacientes. Na verdade, o tratamento psiquiátrico e psicoterápico, quando bem realizados, fortalece e desnuda. Ao ser desnudado, expomos nossas questões, fragilidades, desejos e frustrações. Consequentemente, a partir disso, podemos trabalhar nossas angústias a fim de evoluir e crescer. Resumidamente, esse é o meu papel – aliviar, tratar e lutar para que os pacientes evoluam. Entendo que um paciente, ao compartilhar comigo, de forma cúmplice, as suas…

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Estar deprimido

De fato, quem já esteve deprimido sabe o quanto isso é ruim. Quem já esteve deprimido sentiu, na pele, dias muito nebulosos na vida. Ao falar de depressão, costumo pensar em várias coisas e, dentre elas, enxergo os verbos “ser” e “estar”. Verbos de ligação importantes e com significados claramente diferentes. No entanto, eles se confundem na mente atormentada por uma importante e longa depressão. Quem padece de um estado depressivo carrega em si uma ruminação de sensações enegrecidas e, infelizmente, pode também se perceber bem enegrecido, mesmo que nunca tenha sido. Portanto, o deprimido “está” nessa vibe e se…

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A angústia rasga, a angústia congela

Um paciente, dias atrás, replicou essa fala numa consulta. Fiquei pensando sobre a profundidade dessa descrição. Atender pessoas gravemente angustiadas é bem diferente de estar ferozmente angustiado. Sentir em si é algo infinitamente maior do que ver no outro. Por isso, valorizo muito as falas, explicações, reflexões e conclusões dos meus pacientes. Eles sempre estão certos na descrição dos sentimentos que envolvem seus infortúnios. Cabe-nos perceber, entender e trabalhar mudanças. Esse paciente teve uma longa e sofrida jornada em face de uma doída angústia. Hoje, já sem ela, ele tentou falar a respeito. Ele me disse que a angústia, sobretudo…

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“Fiz para você…”

Ela chegou ao consultório com um sorriso leve. Trazida por suas filhas. Todos eles cearenses tão quanto eu. Suas filhas, que residiam aqui no Planalto Central, preferiram trazê-la para cá a fim de ter um tratamento num local em que ela tivesse um suporte familiar. Assim, foi feito e, por ela ter uma enfermidade psiquiátrica de longa data, eles acabaram por aparecer no consultório. No entanto, o que era preocupante não era a sua doença mental. Essa seria de fácil manejo farmacológico por mais que prejuízos no passado tivessem acontecido. O que realmente chamava a atenção era uma grande tumoração…

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Escutar com o coração

É inevitável que o psiquiatra deve ter um ouvido apurado. O seu instrumento de trabalho está centrado na fala e na escuta. Sem isso, não tem como ajudar ninguém. Mas, ao se falar da escuta, um paciente disse algo que me deixou muito lisonjeado. Ele falou: "doutor, o senhor nos escuta não com os ouvidos, mas sim com o coração". Puxa! Faz sentido. Não adianta somente escutar os relatos que, geralmente, são permeados de dor e angústia. É preciso escutá-los e deixar que aquela onda dolorosa toque o coração. É preciso sentir a dor para que, usando de alteridade, consigamos…

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Fotos de pacientes

Salvo em algumas situações de exceção, eu costumo aceitar pedidos de amizade, por parte dos meus pacientes, nas minhas mídias sociais. Alguns consideram isso errado e pouco funcional na relação médico-paciente. Mas, eu confesso que não enxergo assim. Entendo que, se a relação for respeitosa e pautada nos limites éticos, não haverá problemas. Nos casos de exceção, cabe um manejo correto que pode até levar ao fim da participação nas minhas mídias. A principal razão de tê-los nessas mídias é o fato de poder percebê-los nas suas vidas. Dentro do consultório, eu tenho a inferência das situações, mas, ao olhá-los…

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“Eu tenho saudades de você…”

Essa foi a saudação de uma paciente que atendi hoje pela manhã. Assim que ela adentrou ao meu consultório, ela falou isso concomitantemente ao habitual beijo e abraço que ela sempre me oferta. Ela é uma paciente idosa muito querida. Como dizemos no coloquial, ela é “aquela vozinha linda e muito fofa”. Sua história, infelizmente, se replica em várias outras senhoras. Ela perdeu o esposo há alguns poucos anos. Os filhos não ficaram tão presentes e a ausência deles e dos netos é sentida de forma doída. A sua rede de apoio não é vasta. Consequentemente, o produto dessa equação…

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Na calada da noite…

No domingo, ao final do dia, o meu telefone tocou. Mais especificamente às 23:45h. Quando atendi, quem me ligou se apresentou. Um paciente antigo que já não mais estava em acompanhamento comigo. De forma angustiada, ele disse que precisava conversar e queria um aconselhamento meu. Ele não estava chorando, mas percebi que, pelo embargar da sua voz, isso estava prestes a acontecer. Conversamos. Ele sempre foi muito objetivo, portanto aquela ligação não foi demorada. Eu o acolhi e o aconselhei como ele pediu no começo da ligação. Ao final, eu pontuei que estava preocupado com ele e sugeri que ele…

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Em sísmico…

Assim, um paciente meu descreveu, após a melhora, como é ficar moderadamente deprimido. “Doutor, eu morei num canto do mundo em que tinha umas placas tectônicas nas proximidades. Doutor, acredite em mim. Não é confortável morar todos os dias numa região dessas. Vez por outra a terra treme e, quando treme, tende a ser de forma intensa. Pois bem, eu não sei se o senhor já esteve num sísmico cujo nome corriqueiro é terremoto. Se não, eu lhe garanto que é desesperador. Tudo treme e fica sem base. Você fica sem base. Seu chão fica sem base. O teto fica…

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Trincheira

Aqui, nesse consultório em que escrevo esse pequeno relato, eu aprendo e cresço todos os dias. A cada história, recebo afeto e engrandecimento pessoal. Isso é natural. Isso é inevitável. Eis que um paciente, antes bem deprimido, presenteou-me com a fala que destacarei abaixo. Hoje, ele está bem e retomou sua vida nos mais diversos aspectos. No entanto, anteriormente, na fase aguda da doença, os dias foram sombrios. Semana passada, ele, durante a sua consulta, agradeceu-me pela melhora com a seguinte fala: "Doutor, o senhor sabe o que significa uma trincheira? De certo, o senhor sabe sim. Mas, não sei…

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