Uma Unicamp Aristotélica

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O link abaixo é bombástico. Ele nos mostra que a famosa e respeitada UNICAMP, usando de políticas de inclusão social com bônus de pontos, teve uma proporção expressiva de aprovados (vestibular de 2016) provenientes da escola pública.
 
Certamente, muitos são opositores de tais propostas e os argumentos daqueles que são contrários evocam idéias de justiça e de igualdade com apelos à meritocracia e a isonomia. Ao filosofarmos sobre esses termos, nós precisaremos primeiro entender o que se julga ser “justiça” e “igualdade”, até por que não será possível julgar mérito stricto sensu em situações de disparidade e desigualdade.
 
Ademais, quem se opõe traz argumentos coerentes, porém descontextualizados. Há uma carência de análise histórica e social quando argumentos como esse são lançados – “é errado alguém adentrar no curso tendo feito menos pontos do que alguém que não passou”. É fato, todavia existe, também, outro questionamento a ser feito – como equilibrar a acachapante disparidade entre esse candidato que estudou em escola pública e o candidato de uma escola particular diferenciada?
 
Sim, eu entendo que investir em escolas de qualidade é um caminho nobre, coerente, adequado e permanente, contudo o que fazer com essas gerações anteriores atacadas pela disparidade? O que fazer com as desigualdades históricas desses últimos séculos? Pensar daqui para frente é fundamental, mas olhar para traz é, também, essencial.
 
Por isso, Aristóteles olhou para justiça e definiu igualdade com uma proporcionalidade qualitativa. Portanto, o ato de tratar os iguais de forma igual e os desiguais de forma desigual é um caminho para equilibrar o desequilíbrio até que os instrumentos de maior igualdade sejam alcançados. A partir daí, a idéia do mérito pode prevalecer, pois, antes disso, não há mérito entre 8 e 80.
 
A política de inclusão é bela e acaba por ser uma aceitação e uma resposta das instituições frente às notórias diferenças sociais, educacionais e de oportunidades. O que se deve evitar é o uso político disso. Concordo que há esse risco e deveremos evitá-lo e combatê-lo, no entanto, não há nada de errado no critério de justiça para a sua utilização. Ela encontra respaldo na ética, filosofia e no direito.
 
A UNICAMP está de parabéns por conseguir navegar de forma tranqüila, justa e humana em mares revoltos pelo conservadorismo e pela carência de alteridade. Quem sabe isso possa representar um embrião de mudança social e que as gerações futuras possam ser mais iguais.
 
http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2016/02/unicamp-tem-recorde-de-aprovados-da-escola-publica-apos-ampliar-bonus.html
 
Régis Eric Maia Barros