Uma Mariana no Bataclan e um Bataclan em Mariana

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O mundo vem chorando em decorrência da dor gerada por nós, humanos do século XXI. Diante da agonia da morte e da tirania, o que nos restou foi a possibilidade de chorar e tentar rezar, pois, assim, poderíamos aliviar o latejar da realidade.

 

Costumo dizer que a realidade não permite negociações. Por um tempo, nós podemos negá-la. Em alguns momentos, nós podemos escondê-la. Contudo, não tem jeito, visto que, quando ela se impõe, nada pode ser feito. A realidade é uma só: a cegueira pelo lucro e a insanidade do extremismo matam. Sempre foi assim e, infelizmente, isso é um filme repetido em todas latitudes e longitudes. Como bem defendido pela filósofa Jacqueline Russ, nós vivemos um “vazio ético’ que está sendo capaz de eliminar referenciais básicos para a vida.

 

Eis o grande problema! Com muito pesar, concluo que temos algo que transcende a mineradora Samarco e a organização extremista Estado Islâmico. Isso é o mais doloroso. A dor provém quando se percebe que eventos como esses (Mariana/MG e Bataclan/Paris) são mais comuns do que podemos imaginar. Eles acontecem de forma constante em vários pontos do mundo. No entanto, costumamos nos incomodar quando as páginas dos jornais divulgam o acontecido. Talvez, isso ocorra pelo fato de sermos tocados pela culpa frente a nossa indiferença do mal que assola a humanidade. O mundo está morrendo. Morre-se de tiros e explosões terroristas. Morre-se de lama proveniente de represas rompidas. Morre-se de fome em todos os cantos do mundo. Morre-se de frio na esquina da nossa casa. Morre-se de sede em terras não muito longínquas. Morre-se de doenças por falta de cuidados básicos. Morre-se pela falta daquilo é fundamental ao ser humano. São muitas mortes morridas e matadas. São difíceis, inclusive, de contabilizar. E nós? Talvez, salvo as exceções, nem sequer notamos tantas perdas.

 

Os desastres em Mariana e no Bataclan nos apontam para um protagonismo reflexivo. Precisamos, em coro, nos perguntar: o que estamos fazendo com o mundo e com o todo? Qual o nosso papel em tudo isso, seja pela atuação ou omissão? As duas tragédias são dolorosas e acachapantes. Dói em pensar no estrago que elas causaram. Machuca o simples ato de imaginar essa dor, que é impossível de dimensionar. As lágrimas, nos últimos dias, foram verdes e amarelas e, também, vermelhas, azuis e brancas. Espero que demore muito para que lágrimas de outras cores apareçam, mas, se usarmos a análise do vazio ético de Jacqueline Russ, elas, infelizmente, hão de vir.

 

Régis Eric Maia Barros