Um simples algodão

Algodão Leozinho

Na vinha jornada de psiquiatra e terapeuta, eu vejo de tudo. Eu vejo pessoas em sofrimento emocional todos os dias. Isso mesmo! Essa é a minha rotina da qual não me queixo, visto que, ao ajudá-los, sinto-me realizado. Essas dores e esses sofrimentos surgem, de maneira mais abstrata, pela sensação de que algo está “faltando”.

Está faltando carinho!
Está faltando proteção!
Está faltando amor!
Está faltando projeto!
Está faltando paz!
Está faltando sonho!
Está faltando equilíbrio!
Está faltando felicidade!
Está faltando alguém!
Está faltando a si próprio!

Sempre falta algo, seja material ou não. É uma busca constante de ter aquilo que se percebe em falta. Por isso, além das medicações, todos os tratamentos precisam trabalhar essa conquista – correr atrás e ter aquilo que está faltando. É assim que os tratamentos psiquiátricos e psicoterápicos deveriam caminhar. Sem isso, poucas melhoras duradouras acontecerão e a recorrência de sintomas é quase certa.

Ontem, ao chegar à minha casa, vi uma cena linda que me fez pensar sobre o “ter” e o “não ter”. Consequentemente, sobre o adoecer mental. Vi meus lindos filhos – Leozinho e Ben – correndo e brincando com simples algodões. Eles os jogavam para cima e pulavam de alegria. Eles ficavam jogando os chumaços um contra o outro e nos adultos que presenciavam a cena. Eles os colocavam na cabeça dos nossos 3 cachorros – Juca, Pitty e Mel. Léo e Ben provaram para nós, adultos doentes, que, na verdade, o ter é uma dimensão abstrata de pertença. Às vezes, temos tudo e pensamos que não temos nada. Por vezes, temos o necessário e o importante para a nossa vida, mas lamentamos aquilo que acabamos por não ter. Vivemos na busca de ter cada vez mais e não aproveitamos aquilo que realmente temos e que, de fato, construímos.

Um simples algodão! Não foram carros com controle remoto, jogos caros ou vídeo games de última geração. Foram chumaços de algodão. Confesso que tive vontade de levar algodão para o meu consultório e esparramá-lo pelo chão. Seria surpreendente se os pacientes os pegassem e começassem a guerrear, alegremente, comigo.

Régis Eric Maia Barros