Um par de sapatos

Periferia! Essa era a minha vida. Com muito orgulho, comecei daí. Como muito prazer, comecei sonhar a partir de lá. Um bairro pobre e periférico na cidade de Fortaleza/CE. Ele se chamava Álvaro Weyne. Como qualquer bairro periférico, a conjuntura era a mesma, ou seja: molecada na rua, pouco dinheiro e muita alegria.
Uma criança e um adolescente humilde que buscava, somente, ter uma vida melhor e, quiçá, feliz. Assim, eu era. As limitações financeiras nunca foram capazes de frear os meus sonhos, embora entenda que é muito mais complicado sonhar em condições desfavoráveis. Desse modo, a palavra meritocracia é um verbete semântico excludente que tem a capacidade de manter tudo na mesma lógica social.
Lembro-me, vividamente, de um par de sapatos. Deixe-me explicar. Durante alguns anos da minha adolescência, só existia um pá de sapato social para mim e meu irmão. Nossos números de calçado eram diferentes, mas, com os devidos ajustes, dávamos um jeito. Portanto, se por azar do destino uma festa mais requintada, que necessitasse de uma vestimenta menos coloquial, acontecesse para os dois na mesma noite, alguém sobraria. Como eu era caçula, já podemos perceber quem sobrava em série.
Hoje, numa condição de vida diferente, eu me peguei pensando sobre esse tempo. Não tenho mágoas e muito menos ressentimentos. Pelo contrário, eu tenho orgulho dessa trajetória. Entendo muito bem as dificuldades desse mundo maluco. Por sorte, consegui canalizar muita energia emocional e, ao focar na jornada de estudos, fui capaz de modificar completamente a minha história.
No entanto, aqui estou a pensar: sou a regra ou a exceção?
Alguns colegas da época conseguiram, também, caminhar numa estrada mais pavimentada, contudo muitos, digo a maioria, não foram capazes disso. Alguns se perderam no meio do caminho e outros andam com passos curtos em estradas de terra ou repletas de pedregulhos. É a triste sina de quem tem pouca oportunidade. É uma lógica se estabelecendo. Quem viveu nesses espaços é capaz de entender um pouco melhor.
Não me considero alguém diferenciado e muito menos um ser heróico pelo fato de ter mudado a minha vida. Eu acredito que uma série de vetores ajudou-me na resultante final, mas, infelizmente, a maior parte de todos, que são periféricos, não conseguiu ter esses “vetores” promotores de grandes mudanças. Pelo contrário, as forças, muitas vezes, seguiam sentidos opostos e os puxavam para trás. Esse é o padrão e acaba sendo uma teimosia o ato de não querer enxergar isso.
Por que passou na minha cabeça a necessidade de escrever essa pequena reflexão?
Provavelmente, o gatilho se deu pela compra de um sapato bonito que fiz no último final de semana. Como as vivências falam e saltam da memória, eu me transportei para a minha adolescência e senti tudo aquilo de novo. Qual a minha e a sua parcela de culpa nesse caos de mundo?

Régis Eric Maia Barros