Um gênio mais do que indomável

Um gênio mais que indomável

Depois de uma segunda feira de trabalho árduo com demandas clínicas, periciais e científicas, eis que, agora ao final da noite, tive o prazer de assistir, novamente, ao filme Amor Além da Vida. Nele, Robin Williams dá um show de interpretação e afeto.

Na época do seu falecimento, eu escrevi uma nota/artigo que fazia uma ligação deste filme com minha história de médico psiquiatra. Faço questão de compartilhar mais uma vez para homenageá-lo

Boa noite

Um gênio mais do que indomável

Foram tantas películas fabulosas que não sei por onde começar. Foram tantas representações magistrais que fica difícil definir qual teria sido a melhor. Assim, foi Robin Williams. Um artista genial com a capacidade de nos fazer rir e chorar na mesma intensidade e com o mesmo envolvimento. Infelizmente, ele não suportou a dor latejante de um processo depressivo severo que foi agravado por uma possível dependência de álcool e cocaína. A dor emocional atingiu níveis exorbitantes levando-o a desistir da vida. Que pena! Quanta saudade e como ficaremos mais empobrecidos em termos artísticos com a sua partida.

Tudo isto me causou uma tristeza descomunal. Talvez, a explicação dela possa estar relacionada, em parte, com o fato de ter escolhido a psiquiatria como especialidade médica. Portanto, estes desfechos acontecem na nossa práxis e não tem como não nos identificarmos. No entanto, o outro fator foi a identificação do evento com um dos filmes dele o qual, eu confesso, foi o que mais me marcou. Em um momento de dúvidas sobre o meu futuro, este filme me apontou para onde caminhar. Em inglês, o nome do filme é What Dreams May Come. A tradução para o português trouxe a seguinte denominação “Amor Além da Vida”. Embora a tradução não tenha saído ao pé da letra, eu prefiro o título em português. Que triste coincidência! Neste filme, o protagonista (Robin Williams), depois de uma seqüência de eventos trágicos, decidiu tentar resgatar sua esposa no inferno, após ela ter cometido o suicídio. Assim, ele, corajosamente, fez e encarou os riscos de ficar preso nesta dimensão espiritual, pois havia grandes chances dele não ser reconhecido por ela. Seguindo uma jornada surreal e envolvente, onde o amor floresce e vence, ele consegue, mesmo após a morte e o suicídio da sua amada, fazer com que a vida aconteça para todos. Apresentando semelhanças com a Divina Comédia de Dante Alighieri, o filme permite que nos alimentemos com o amor infinito e sublime entre duas almas gêmeas. Amor este capaz de superar a mais devastadora dor das relações humanas – o suicídio.

Após assistir repetidas vezes a este filme, eu não tive dúvidas sobre o meu futuro. Só existia uma opção para mim: fazer a residência médica de psiquiatria e caminhar na busca de ajudar o outro que padece de dores na alma e no emocional. Aquele que se lembrar da cena onde o protagonista (Robin Williams) tenta dialogar com a sua esposa suicida entenderá o que eu descreverei a seguir. Se não lembrares, procure assistir novamente. Ao abordá-la no inferno, local de extrema amargura emocional, ele atuou como um grande psiquiatra. Um psiquiatra humano. Um psiquiatra capaz de acolher e se envolver com a dor. Um psiquiatra capaz de se doar e que não teme o desfecho negativo. Um psiquiatra que prescreve amor e carinho. Um psiquiatra na essência da palavra e da existência. Um psiquiatra que chora e abraça. Um psiquiatra que cuida. Foi dessa forma que Chris Nielsen (nome do personagem) lutou até o fim, sem se amedrontar, com a morte e com o suicídio.

Hoje, eu sou psiquiatra e poucos sabiam da grande motivação da minha escolha profissional até eu escrever este texto. Poucos sabiam que sou, extremamente, grato a Robin Williams que emprestou seu talento a Chris Nielsen e mostrou como poderemos lutar pela vida e pela reconquista emocional daqueles que sofrem. Infelizmente, por ironia do destino, ele partiu da mesma forma que sua amada do filme. Quisera eu ter a oportunidade e a missão, em algum momento da minha existência, de empreender uma jornada espiritual até onde ele esteja. Gostaria de abraçá-lo, agradecê-lo, acolhê-lo, resgatá-lo e trazê-lo de volta para a alegria da vida vívida no mundo espiritual. Obrigado O Captain! My Captain!

Régis Eric Maia Barros