Suassuna e os João Grilos e Chicós

Ariano Suassuna

Quantos João Grilos e Chicós existem no sertão nordestino? Quantos precisaram de “grilar” e se “chicozar” para sobreviver. Sobrevivência numa terra sem nada a ofertar é quase um ato de heroísmo, pois que está sem emprego, sem perspectiva, sem comida e sem educação sucumbirá à própria sorte.

Contudo, o sertanejo teima em viver e mantém uma postura sorridente e vivaz a despeito do flagelo. O pior flagelo não seria o da seca, mas sim o flagelo do homem, que explora os outros e centraliza em si a riqueza e os meios de vida.

Então, o mestre Suassuna cria para o Brasil e para o mundo estes personagens pitorescos (João Grilo e Chicó). Com eles, a fantasia desabrocha e em meio as mazelas e a tristeza do abando eles fazem todos rir.

Abaixo, transcrevo a intervenção de Nossa Senhora a favor de João Grilo. Quanta riqueza de detalhes ao falar brevemente do sertanejo pobre e desassistido.

Obrigado mestre Suassuna!

“João foi um pobre como nós, meu filho, e teve que suportar as maiores dificuldades numa terra seca e pobre como a nossa. Pelejou pela vida desde menino. Passou sem sentir pela infância. Acostumou-se a pouco pão e muito suor. Na seca, comia macambira. Bebia o suco do xique-xique. Passava fome e, quando não podia mais, rezava. E, quando a reza não dava jeito, ele ia se juntar a um grupo de retirantes que iam tentar sobreviver no litoral. Humilhado. Derrotado. Cheio de saudade. E logo que tinha notícia da chuva, pegava o caminho de volta. Animava-se de novo. Como se a esperança fosse uma planta que crescesse com a chuva. E quando revia sua terra dava graças à Deus de ser um sertanejo pobre, mas corajoso e cheio de fé.”

 

Régis Eric Maia Barros