Sempre haverá pessoas iluminadas

adoção

Independente da intensidade da escuridão, a luz se evidenciará em determinadas pessoas. Elas representam um feixe incandescente de luminosidade no meio desse caos promovido pelo egoísmo e pela egolatria. Essas pessoas carregam, em si, tanta alteridade e caridade que se torna obrigação reverenciá-las e descrevê-las em seus feitos. Assim, eu farei nesse relato. Trata-se de uma perícia de interdição que realizei há pouco. Resumirei a história e tentarei explicar alguns termos médicos que surgirão no relato.

Uma pericianda, que foi produto de estupro e nasceu prematura aos 6 meses de gestação e com um peso extremamente baixo (860 g). Sua mãe biológica tinha 13 anos de idade, tentou abortá-la, era usuária de drogas e a deixou no hospital. Ela teve sofrimento fetal devido hipóxia neonatal (pouca oxigenação ao nascer). Ela evoluiu com hemorragia ventricular grau III (sangramentos na cabeça e no cérebro) e teve algumas complicações importantes promovidas por infecções tais como, meningite e sepse (infecção disseminada). Além disso, devido os sangramentos e a infecção, o cérebro da pericianda ficou incapaz de renovar os líquidos de alguns espaços do próprio cérebro chamados ventrículos. Isso causou uma complicação neurológica chamada de hidrocefalia que determinou a necessidade de uma neurocirurgia para resolver essa questão (válvula de derivação ventriculoperitoneal). Depois de uma longa jornada de internação hospitalar, a pericianda foi abrigada e colocada a disposição da adoção. Contudo, pelo seu grau de comprometimento e pelas várias seqüelas na mente, movimentos e comportamentos (cognição, intelectual e motor), poucos se interessaram pela sua adoção. Ela foi ficando nesse abrigo por aproximadamente 2-3 anos. Sua situação emocional evidenciava a escuridão, ora descrita por mim no primeiro parágrafo desse relato. Ela foi definhando e se mostrava emagrecida e de certa forma deprimida, mesmo com a pouca idade. Talvez, isso até representasse uma escolha de não querer mais continuar até por que a vida, de fato, não estava sendo justa consigo. Eis que aparece a requerente do processo – sua mãe adotiva e que, nesse momento, pleiteia a interdição da pericianda. Ela, a despeito de tudo, desejou e encaminhou a adoção. Levou-a ao seu seio familiar. Ofertou amor e carinho. Forneceu cuidado. Permitiu uma vida. Usou a alteridade como moeda. Promoveu uma caridade descomunal. Exerceu o papel de mãe como poucos exerceriam. Estimulou a pericianda de modo que as graves dificuldades, nas mais diversas áreas da vida, foram combatidas. É claro que dificuldades e déficits ainda existem e, em função disso, a interdição foi solicitada, contudo, diante do quadro descrito, a pericianda era para ser muito mais comprometida. Ela, a pericianda, é um menina linda, sorridente e interativa. A requerente, mãe adotiva, é uma pessoa bela, abençoada e iluminada.

Não podia deixar de compartilhar esse relato depois de ter vivenciado as descrições dele, tanto com a mãe (requerente) quanto com a filha (requerida). Confirmei, do meu jeito, que essas pessoas iluminadas provam que isso aqui pode ser melhor. Tive provas de que o amor, ligado a alteridade e a caridade, é tão poderoso que é capaz de tornar possível o que julgamos ser impossível. É isso mesmo: “é só o amor que conhece o que é verdade, pois, sem ele, nada seríamos e nada seremos”.

Régis Eric Maia Barros