Respeitável público

Circo

Prezados,

Hoje, eu tive a alegria de levar pela primeira vez o Leozinho (meu filho primogênito) ao circo. Era um circo pequeno. Sem muitas pompas e sem ostentação. Era um circo onde o trapezista foi o mesmo vendedor de pipoca antes do espetáculo. Pelo menos, recordo-me dele me vendendo simpaticamente dois sacos de pipocas Era um circo de fato onde se encontrava ainda o porquê da existência do circo. Um circo que sempre povoou nosso imaginário e que amamos.

Hoje, foi um dia especial por ter vivido isto com o Leozinho. Pois bem, lembrei-me de um antigo texto que escrevi anos atrás e que fala um pouco disto.

Faço questão de compartilhar com vocês.

Aí vai o texto, espero que gostem.

Respeitável público

Juntei as moedas e mais alguns trocados e comecei os preparativos. Coloquei uma bonita roupa. Certamente, não era de grife, portanto a camisa nem de longe era da Crawford, a calça não foi comprada na Brooksfield e o sapato não esteve na vitrine da Harry’s. Tudo era muito simples, mas muito querido. Pelas minhas contas, o dinheiro que consegui juntar daria para a entrada e para uma pipoca. Perfeito! Não precisaria mais de nada. Absolutamente nada.

Os colegas passaram na minha casa que ficava um pouco mais afastada. Andaríamos 1 a 2 km até chegar ao nosso destino. Isto por que cortávamos caminho passando por cercas e arames farpados. Nada nos contrariava, pois seria noite de circo. Circo no sertão era muito bom! O carro de som passava anunciando o espetáculo desde cedo. Ainda consigo me lembrar do chamado. Era mais ou menos assim: “respeitável público”! “Não perca o maior espetáculo da terra que se apresentará hoje ao lado da igreja matriz”. Todos nós tínhamos a certeza de que seria, se não o maior, um dos maiores da nossa jovem vida. Tínhamos vivido em torno de uns 7 a 8 anos. Então, naquele instante, seria sim um dos maiores eventos vivenciado.

Entramos juntos na certeza de que havia a necessidade de viver tudo aquilo de forma coletiva. Escolhemos o lugar mais alto da “baixa” arquibancada. Isto mesmo! Não existiam mais do que 4 lances de arquibancada que foi construída da forma mais artesanal que se pudesse imaginar. O picadeiro, a lona, os enfeites e as arquibancadas não foram produtos de engenheiros, mas dos próprios artistas. Desse modo, tábuas e varetas tinham aos montes. Talvez a segurança fosse até questionável, porém o dinamismo de todos que compunham a trupe era surpreendente.
Recordo-me que o espetáculo começou às 20h. O silêncio tomou conta de todos como se por detrás das cortinas fossem surgir monstros da mitologia grega ou o inimaginável. De certa forma, não tínhamos imaginado qual seria a nossa reação, por que estávamos pela primeira vez na frente “do maior espetáculo da terra”.

As cortinas foram abertas e a magia começou. De fato, os efeitos especiais e o figurino nunca fariam frente ao Cirque du Soleil. Mas quer saber de uma coisa? Para mim, o primeiro circo foi muito melhor, embora eu já tenha assistido alguns espetáculos da trupe canadense. Eu achei e ainda o acho melhor pela possibilidade que o pobre circo interiorano me ofertou. Ele permitiu que meus sonhos brotassem. Ele fez isto e paguei poucos trocados. Não precisei gastar R$ 200 ou R$ 300. Por muito pouco, ele me deu muito e muito mesmo. Gargalhei com o velho palhaço, sorri com os pequenos poodles saltitantes e fiquei amedrontado com os trapezistas. Depois de um tempo, comecei a perceber que os artistas eram repetidos. Em outras palavras, cada integrante fazia mais de um papel. Risos, gritos e arrepios apareciam em sequência. Ao final, ficaria a saudade. Não teria condições de retornar, embora os ingressos não fossem tão onerosos.

Mas por que eu gastaria seu tempo para falar de um pobre circo de interior e de periferia? Pela importância de ter compreendido como é bom sonhar. O riso do palhaço, o sorriso da bailarina, a tensão do trapezista, a concentração do mágico e a habilidade dos motoqueiros no globo da morte ajudaram-me no entendimento de que para crescer é preciso sonhar. Não sonhos perdidos nos devaneios, porém sonhos de desejos e de busca. Sonhos de vitória e sonhos de sucesso. O medo sempre acompanhará os sonhos, contudo, se o sonho for repleto de “sonhos”, o medo não terá a audácia de perturbar. O sonho é o motor da felicidade. Aquele que se esqueceu de sonhar e desejar, já morreu. Esta é a pior morte, pois se morre estando vivo. Embora este trocadilho seja confuso, entendemos que muitos conhecidos já morreram. Nem é possível velá-los, visto que, a morte foi lenta e crônica. Meus sonhos começaram lá. Pude compreender que somos capazes de tudo. Se eles erguiam as lonas, divulgavam o espetáculo, domavam os animais, colocavam-se em riscos, riam, gargalhavam, choravam, gritavam, cansavam e viviam indo de cidade para cidade, por que eu não podia ter meus sonhos? Claro que podia! Nós sempre poderemos mais. O nosso limite é o “sem limites”. Aos nossos sonhos, temos a obrigação de dar asas, mas não asinhas frágeis. Você precisa dar asas bem grandes. Asas de “Pegasus”! Portanto, asas divinas capazes de encarar os mais temidos desafios. Não tema! Voe, voe e voe cada vez mais. Se sentir cansaço, bata mais as suas asas. O objetivo nunca estará longínquo. Cada asa batida aproximará você do seu sonho.

Hoje, eu acordei no meio da madrugada e tive vontade de escrever esta crônica. Na verdade, sonhei (sonho polissonográfico convencional das noites) com o espetáculo circense da minha infância. Consegui relembrar vividamente a face dos artistas. Acredito que alguns nem estejam mais por aqui. Outros nem sei se ainda trabalham com circo. Deu uma vontade tão grande de agradecê-los pela ajuda que eles deram às asas dos meus sonhos. Acho que eles não imaginariam isto. Eles estavam querendo sobreviver e trabalhavam fazia chuva ou sol, mas o efeito foi importante para minha vida. Alguns sentaram nas madeiras velhas das arquibancadas, comeram uma ou outra pipoca e aplaudiram de maneira condicionada cada ato. Eu enchi meus olhos e assumi para minha vida um pouco de bom humor, equilíbrio, riscos, desejo, segurança, harmonia, disciplina, coragem e ausência de medo ao errar. Elementos necessários para os sonhos e presentes naquele remoto picadeiro.

Lamento que estes circos sejam cada vez mais raros. Nunca mais ouvi falar deles. Espero que ainda existam e que o fato de não escutar sobre eles seja reflexo da vida numa cidade grande. Além de torcer pela manutenção da sua existência, ficarei também torcendo que alguma criança possa assisti-lo e que os sonhos passem a brotar de maneira descontrolada. Não há nada mais doloroso do que matar sonhos ou não os estimular. O coronel Frank Slade representado por Al Pacino em Perfume de Mulher falou em seu iluminado discurso “que não há nada pior que a visão de um espírito amputado, pois não haverá prótese para isto”. Este espírito amputado representaria não concretamente alguém sem membros, mas alguém sem sonhos para correr atrás.

Agora, deu uma vontade meteórica de levar meu filhinho (Leozinho) num destes circos. Estes mesmos com lona rasgada e sem luxo, mas repleto de sonhos. Gostaria de mostrar para ele os detalhes de tudo e quem sabe decodificar algumas coisas. Buscaria evidenciar os sonhos subliminares e como poderemos ser tudo ou nada. Dependerá de nós. Apontaria os sorrisos e as lágrimas não caídas nas faces bem como o desejo de simplesmente existir. Tentaria demonstrar que o onírico é a caldeira de muitas coisas da nossa vida. Que a fórmula está dentro de nós e que precisamos encontrar. Somente isto! Se alguém puder te ajudar nesta descoberta, não haverá problemas. No entanto, será uma busca sua. Acho que o Leozinho entenderia direitinho, pois, quando ele assiste aos vídeos animados da Galinha Pintadinha, ele se deleita e seus olhos brilham como se fosse duas pérolas raras. Ele mergulha nos sonhos e os alimenta. Faça o mesmo contigo e tente mostrar os sonhos aos seus pequenos.
“Sonhar é acordar-se para dentro”
(Mário Quintana)

Régis Eric Maia Barros