Quando eu partir…

Régis Barros Pink Floyd

Quando eu partir, se possível, quero pouco choro. De preferência, quero música em tons elevados. Música de boa qualidade que festeje a vida e não a morte. Quem sabe possamos fazer um mix de rock e forró. Musicalidade plena, pois, assim, mostro que valeu muito a pena. Na verdade, peço que todos, que forem ao meu velório, estejam de coração aberto. Não vá por mera formalidade. Não precisa. Acredite em mim! Isso me fará e te fará muito mal. Aqueles que estiverem lá devem estar não por obrigação. Esse mundo chato já tem muitas obrigações. Lá, eu quero é afeto e muito afeto mesmo. Quero, no meu velório, ver o rosto dos meus amados e vou trabalhar para ver também o sorriso de vocês. Por isso, meu velório há de ser diferente. Beijarei o rosto de todos. Vocês sentirão isso. Não quero café nem biscoitinhos como acontece de praxe. Isso é fúnebre e me incomoda. Eu quero que vocês possam tomar taças de bons vinhos e, quem desejar, doses de um bom whisky. Quero salgadinhos e comidinhas que se harmonizem bem com as bebidas. Podem beber sem moderação. Deixa que a conta dos Ubers é minha, pois estará nas despesas do meu velório. Quero gargalhadas e muitas histórias. Quero algazarra. Quero gritos de liberdade e abraços. Celebrem o que é bom e o que temos de bom, ou seja, nós mesmos. Falem entre si sobre os belos momentos que vivemos juntos. Contem nossas histórias que foram vividas juntas. Descrevam sobre o quanto sorrimos de alegria e o quanto choramos nas tristezas da vida. Mas, eu me recuso que esse momento seja triste. Quero pinturas nas paredes e quero, também, que muitos dos meus escritos (contos, crônicas, poesias e ensaios) sejam distribuídos para todos. Sei que nas capelas vizinhas existirão outras famílias chorando a morte dos seus entes amados. Então, façam-me um favor! Vão lá e os chamem para cá. Certamente, já terei chamado aqueles outros que morreram para essa festa. Quero também um grande tatame e, por favor, evitem placas de tatames pretas. Usem uma mistura de azul e branco que evidencia paz e desejo. Chamem meus amigos de tatame para um treino e que façam um treino pesado e puxado. Estarei no meio deles treinando também. Quem sabe podemos propor um sarau e que cada um possa trazer uma pequena poesia que valorize a vida, o amor e a amizade. Poderíamos, também, pensar numa trupe de teatro que faça humor e que permita mostrar que a vida é uma comédia. Se vocês olharem nesse momento para o meu caixão, perceberão que estarei rindo e muito alegre e feliz. Na verdade, eu não morri, visto que, morrer é deixar de existir e fica claro, nessa festa, que eu não morri. Eu continuo dentro de cada um de vocês. Portanto, estou vivo. No final da tarde, quando terminar toda muvuca festiva, voltem para casa felizes, pois saibam que eu estarei muito bem.

Régis Eric Maia Barros