Qual o humano melhor: o “selvagem” ou o “atual”?

Refugiada sendo chutada

Muitos escreveram sobre o estado de natureza do homem, ou seja, aquele ser “selvagem” que não tinha uma vida em sociedade como a que nós temos nos dias de hoje. Esse homem, em estado de natureza e desprovido de propriedades privadas, paixões e disputas, fascinava pela perspectiva de ter bondade in natura.

Para Rousseau, o estado de natureza apresentava, em si, a bondade e nele poderíamos encontrar a piedade que antecedia ao próprio aprendizado do dever ser piedoso. Essa piedade do homem “selvagem” mostrava a sua capacidade de perceber e se identificar com a dor do seu semelhante. Mesmo sem ter uma convivência social dinâmica como a da atual sociedade, esse homem, em estado de natureza, não desejava o mal ao outro nem era indiferente a dor do seu igual. Conforme descrito a seguir num pequeno trecho da obra de Rousseau (Ensaio sobre a Origem das Línguas – 1995, p. 395-6), a piedade faz do “bom selvagem” um ser humano não contaminado por constrangimentos sociais. Por isso, ele ressaltou: “Somente sofremos na medida em que julgamos que ele sofre; não é em nós, é nele que sofremos.”

Dentro dessa reflexão filosófica, será que todos nós, humanos do século XXI, temos a piedade que o “bom selvagem” tinha? Será que nossas atitudes nos permitem a qualificação de “homens bons”? Certamente, todos que estão me lendo não são humanos em estado de natureza. Somos modernos e de uma geração científica e tecnológica. E daí? Isso nos faz bondosos e piedosos?

A nossa indiferença frente às várias dores e mazelas sociais do nosso mundo, talvez, nos adjetivem noutra perspectiva – um homem moderno que esquece a bondade. Ou seja, um humano a ser qualificado como “homem não bom”. Triste pensar assim. Seria uma postura pessimista da minha parte? Pode ser que sim. Contudo, os exemplos que podemos descrever na história da humanidade pesam contra nós.

Por exemplo, o que poderíamos falar da fome ainda endêmica em várias regiões do mundo? O que poderíamos falar das mortes por doenças infecciosas e parasitárias em bolsões de miséria? Por fim, o que poderíamos falar da repórter húngara que chutou o refugiado com seu filho no colo? Infelizmente, não são peças isoladas, mas, pelo contrário, são habituais. Não se precisa ir longe para confirmar essa afirmação. Basta ir às esquinas para testemunhar. Basta visitar as periferias da sua cidade para comprovar.

Que sejamos mais “selvagens” dentro da perspectiva rousseauniana, pois, quem sabe, seremos mais piedosos e bondosos. Que sejamos mais humanos em estado de natureza, pois, quem sabe, nos identificaremos mais com o próximo. Essa é nossa era histórica. Um período caracterizado pelo avanço no saber científico e tecnológico, todavia apresentando uma involução de valores capazes de nos assustar.

Régis Eric Maia Barros