Recentemente, tive o prazer de ler, por mais uma vez, o Monólogo de Natal* do poeta Aldemar Paiva. A sensibilidade desse poeta foi fabulosa e teve a capacidade de deixar subtendido que o Natal, infelizmente, não é uma festa de todos e para todos. Por mais que nesses dois dias (24/12 e 25/12) brote um ímpeto de humanismo na coletividade, esses dois dias passam e afirmo que eles passam rapidamente. Depois da data festiva, a engrenagem volta ao “normal” com uma normalidade anormal. Embora confuso, será fácil de compreender. Findando a ceia farta, a troca dos presentes e as guloseimas, o humanismo sucumbe. A rotina se estabelece. A vida continua. A idéia de que precisamos ser bons, bondosos e caridosos se esvai e se diluiu. Enfim, a nossa vida é muito corrida. Nossos compromissos são mais importantes. A miséria não é nossa culpa. Como se fala: “a culpa é dos governos que não ofertam”. De forma projetiva, nada é nossa culpa. Não criamos nada. Não protagonizamos nada.
O que nós esperamos? Seria uma espera “fake” onde o “Bom Velhinho” desceria a chaminé para distribuir presentes encantando todos de alegria? Como descrito por Aldemar Paiva, o Papai Noel não é uma construção, de fato, para todos. Ele presenteia poucos e muitos ficam à sua espera com as mãos sedentas e ansiosas. Para eles, ele não veio e, talvez, nunca virá. A mensagem do Natal é linda, mas houve uma distorção histórica com uma retórica dos tempos modernos. A idéia da paz e da união perdeu espaço para o material e o consumo. Infelizmente, somente isso importará em muitas casas no dia de hoje – comer, beber e ganhar seu presente. Que seja isso para alguns! Para esses, o Natal será pobre, vazio e volátil.
Mas a pobreza? Mas a miséria? Mas a fome? Não, ela não é culpa nossa, mas sim dos governos. Seria este um artigo comunista? Alguns dirão que sim, contudo aqueles, que cansaram de esperar o Papai Noel, compreenderão melhor essa reflexão. Por fim, que o Natal seja belo, em sua essência, e que suas construções sejam eternas e não, somente, de final de ano.
Régis Eric Maia Barros
Monólogo de Natal*
(Aldemar Paiva)
Eu não gosto de você, Papai Noel!
Também não gosto desse seu papel
de vender ilusões à burguesia.
Se os garotos humildes da cidade
soubessem do seu ódio à humildade,
jogavam pedra nessa fantasia.
Você talvez nem se recorde mais.
Cresci depressa, me tornei rapaz,
sem esquecer, no entanto, o que passou.
Fiz-lhe um bilhete, pedindo um presente
e a noite inteira eu esperei, contente.
Chegou o sol e você não chegou.
Dias depois, meu pobre pai, cansado,
trouxe um trenzinho feio, empoeirado,
que me entregou com certa excitação.
Fechou os olhos e balbuciou:
“É pra você, Papai Noel mandou”.
E se esquivou, contendo a emoção.
Alegre e inocente nesse caso,
eu pensei que meu bilhete com atraso,
chegara às suas mãos, no fim do mês.
Limpei o trem, dei corda,
ele partiu dando muitas voltas,
meu pai me sorriu e me abraçou pela última vez.
O resto eu só pude compreender quando cresci
e comecei a ver todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse, a seco:
“Onde é que está aquele seu brinquedo?
Eu vou trocar por outro, na cidade”.
Dei-lhe o trenzinho, quase a soluçar
e como quem não quer abandonar
um mimo que nos deu, quem nos quer bem,
disse medroso: “O senhor vai trocar ele?
Eu não quero outro brinquedo, eu quero aquele.
E por favor, não vá levar meu trem”.
Meu pai calou-se e pelo rosto veio
descendo um pranto que, eu ainda creio,
tanto e tão santo, só Jesus chorou!
Bateu a porta com muito ruído,
mamãe gritou ele não deu ouvidos,
saiu correndo e nunca mais voltou.
Você, Papai Noel, me transformou num homem
que a infância arruinou, sem pai e sem brinquedos.
Afinal, dos seus presentes, não há um que sobre
para a riqueza do menino pobre
que sonha o ano inteiro com o Natal.
Meu pobre pai doente, mal vestido,
para não me ver assim desiludido,
comprou por qualquer preço uma ilusão,
e num gesto nobre, humano e decisivo,
foi longe pra trazer-me um lenitivo,
roubando o trem do filho do patrão.
Pensei que viajara,
no entanto depois de grande,
minha mãe, em prantos,
contou-me que fôra preso
e como réu, ninguém a absolvê-lo se atrevia.
Foi definhando, até que Deus, um dia,
entrou na cela e o libertou pro céu.
Fonte: www.rauzidecarvalho.com
