O mal dando as cartas

bem e mal

Embora eu tenha muitas ressalvas sobre os conceitos da Patrística Medieval, uma perspectiva de análise de Santo Agostinho estimula-me ler a sua obra. Portanto, a dualidade maniqueísta do ser humano me enche os olhos, sobretudo quando me deparo com os funcionamentos diários da nossa raça “evoluída”.

Enfim, o “bem” e o “mal” nas nossas antípodas do funcionar. Eu e você, em face do livre-arbítrio, podemos ser este dual maniqueísta. Podemos, em face do desejo, atuar com uma bondade nobre e uma maldade cáustica. Seria o mal a ausência do bem nesta execução do livre-arbítrio humano? Com isto, a culpa divina seria afastada e o “Deus Criador” protegido da culpa na criação do mal? Talvez sim e Talvez não. Contudo, que a maldade borbulha em todos é um fato.

Lamentavelmente, somos testemunhas oculares de tal perspectiva ora como “agentes” do mal, ora como “vítimas” do mal. A perspectiva de análise relativiza e nos coloca de um lado ou de outro, mesmo nas atuações que não são moralmente tão graves.

Seria o mal um nada, ou seja uma privação do bem? Mas por nós deixamos o bem carecer? O que nós buscamos com este olhar de pouca oferta do que é bom e do que é bem?

Enfim, você e eu, portanto todos nós, escolhemos e sempre escolheremos com um justificar que será o nosso álibi para as atitudes. Nós nos justificaremos usando, sempre, as mais tênues justificativas com explicações pseudo-puras e desprovidas de “maldade”. Como se fôssemos 100% bom e 100% bem!

O ser humano é um ser que maltrata e que, repetidas vezes, quebra a harmonia. A solução seria o purgatório ou o capeta com seu tridente em chamas? O capeta não daria conta. Ele sucumbiria, pois, ao usar tal construção analítica, todos, de alguma forma ou de outra, deverão passar por lá. Então, resta filosofar e analisar, pois a “maldade” continuará a existir, mas quem sabe poderemos negá-la e racionalizá-la menos.

Talvez, por isto, Agostinho de Hipona, na obra Confissões, assim destacou este refletir tocado acima:

“Em absoluto, o mal não existe nem para Vós, nem para as vossas criaturas, pois nenhuma coisa há fora de Vós que se revolte ou que desmanche a ordem que lhe estabelecestes. Mas porque, em algumas das suas partes, certos elementos não se harmonizam com outros, são considerados maus”.

Enfim, em quais e quantas partes suas que leu esta minha reflexão, o mal dá as cartas?

Régis Eric Maia Barros